Glórias do Passado

Lembras-te deste? Citroën AX GTI: The ultimate driving School

Depois do Volkswagen G40 (o malvado alemão) chegou a vez de visitarmos uma das melhores criações da escola francesa de enfant terribles, o Citroën AX GTI.

Antes de começar a escrever sobre o fantástico, incomparável e inigualável Citroën AX GTI, tenho de fazer uma declaração de interesses: esta análise não será imparcial. Já tinha dado para perceber não já?

Só não será imparcial porque este é um modelo que me diz muito. Foi o meu primeiro carro. E como sabem, o primeiro carro fica-nos no coração. É aquele em que muitos de nós faz pela primeira vez um pouco de tudo, e às vezes, até um pouco de mais… Mas esta peça é sobre o Citroën AX, não é sobre as minhas memórias. Ainda que caso queiram, o possa fazer.

Mas voltando ao Citroën AX, fosse na versão GTI ou GT, ambos tinham os seus encantos. Um carro que ganhou fama de ser rápido (muito rápido…) mas também de ter uma traseira delicada. Os mais incautos falavam de alguma falsidade. Um defeito, que não era mais do que uma virtude mal entendida.

Citroën AX GTI — mas principalmente o GT — rodavam sobre o eixo traseiro como poucos. No fundo, tratava-se de uma sublime tendência para a deriva traseira quando se entrava na curva a exagerar no apoio da dianteira, o que proporcionava, àqueles que o ousavam desafiar, momentos bastantes quentes. Um temperamento que só tem paralelo em alguns dos mais recentes desportivos de tração dianteira.

A traseira colaborava com a dianteira para descrever num momento linear quase poético uma curva perfeita, onde condimentos como cheiro a pneu queimado, forças G e diversão faziam parte do prato do dia. Um prato que diga-se, vinha sempre bem servido.

Numa estrada de montanha sentia-se perfeitamente que o Citroën AX GT/GTI estava no seu habitat natural. Como é óbvio, nem sempre as coisas correm como programado. De facto, no limite dos limites as coisas tornavam-se complicadas.

Apesar de partilhar a mesma base rolante que o Peugeot 106 GTI, o Citroën AX GTI tinha uma distancia entre eixos mais curta que o seu irmão de ocasião. O que por um lado era uma vantagem em estradas reviradas, era por outro uma desvantagem em curvas rápidas com menos apoio. Ai sim, notava-se que a estabilidade “atrevida” do pequeno francês dava lugar a um temperamento demasiado nervoso. Mas como escrevia à pouco, quanto mais retorcida fosse a estrada mais o pequeno francês gostava.

Bem equipado e fiável

O equipamento, face à época, era bastante completo. Na versão GTI Exclusive já podíamos contar com uns nobres estofos em pele que forravam parte das portas e claro, os magníficos bancos que equipavam este modelo. Um luxo que coabitava com soluções que apontavam mais para a poupança do que propriamente para a luxuria. Por exemplo, o porta-malas ao invés de ser em chapa, era uma simples peça de fibra “agarrada” ao vidro traseiro. Ainda hoje, prefiro pensar que aquilo mais não era do que uma forma de poupar peso e por conseguinte uma tentativa de melhorar o automóvel e não uma questão de poupança. Mas lá no fundo sei que não é verdade…

De facto a qualidade de construção não era o ponto forte do Citroën AX, no entanto também não comprometia, não se conhecendo problemas de fiabilidade ao carro francês. Bem pelo contrário… era pau para toda a obra.

Peso-pluma

Uma fiabilidade que se fundava na simplicidade de todo o conjunto e que tinha reflexo no peso total do conjunto: uns magros 795 kg de peso para o GTI, e uns magríssimos 715 kg de peso para o GT. Uma diferença de peso tão substancial que fazia com que o menos potente GT ganhasse ao mais potente GTI, no arranque dos 0 aos 100 km/h.

O Citroën AX GTI estava equipado com um magnífico motor de 1360 cm3 e 100 cv às 6600 rpm (95 cv após receber catalisador), enquanto que a versão mais “simplista” do AX, o GT montava variante mais “modesta” do mesmo motor, com carburadores duplos que debitava a bonita cifra de 85 cv, que passariam a 75 cv com a introdução da injeção eletrónica.

Uma relação peso-potência mesmo à medida dos mais aceleras, e que locomovia o pequeno francês até bem perto dos 200 km/h.

Controlo de tração, de estabilidade e outras coisas que o valham, eram como sabem, coisas de filme de ficção cientifica. Das duas uma, ou estávamos à altura dos acontecimentos ou então mais valia entregar a pasta a outro. Que é como quem diz, largar o volante…

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E assim era o pequeno AX GTI/GT. Um pequeno, divertido e fiel companheiro das estradas retorcidas e de outros tipos de excessos. Uma escola de condução como poucos, em que havia uma verdadeira ligação homem/máquina, e onde se sentiam a trabalhar em uníssono (às vezes…) todas as peças que compunham o puzzle. O motor sentia-se a trabalhar lá à frente, quiçá pela má insonorização do interior, ou quiçá para agradar aqueles que têm uns ouvidos mais temperamentais.

Seja como for, não há nada que se compare ao primeiro amor não é verdade?


Sobre o “Lembras-te deste?”. É a rubrica da Razão Automóvel dedicada a modelos e versões que de alguma forma se destacaram. Gostamos de recordar as máquinas que outrora nos fizeram sonhar. Embarca connosco nesta viagem no tempo, semanalmente aqui na Razão Automóvel.

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