Glórias do Passado

Citroën BX 4TC: o carro de ralis que a Citroën quis esquecer

O Citroën BX 4TC é um dos piores e mais espectaculares carros de ralis de todos os tempos. Conhece a sua história, vê as suas imagens e percebe porquê.

Citroën World Rally Team. Fundada em 1998, a equipa francesa da Citroën é uma das equipas mais respeitadas no paddock do Mundial de Ralis. O seu palmarés fala por si: 9 títulos mundiais de pilotos, 8 títulos mundiais de marcas e 98 vitórias à geral. Isto apenas no WRC.

Mas antes da fundação da Citroën World Rally Team, a marca francesa já tinha tentado a sua sorte no Mundial de Ralis sem qualquer fama ou glória. Este artigo é sobre essa cruzada. Uma cruzada que teve no Citroën BX 4TC o seu principal «calcanhar de Aquiles».

Na «era dourada» dos Grupo B

Ainda que apenas dois anos depois, os Grupo A (Lancia Delta HF Integral 16V; Celica GT-Four; Ford Sierra RS Cosworth, etc) fossem incomparavelmente mais rápidos que os Grupo B, a verdade é que, quando invocamos o passado, são os Grupo B que continuam a preencher o nosso imaginário.

Quando o assunto é carros de ralis viscerais, potentes, temíveis, indomáveis, radicais — bem, já chega de adjetivos… — os nomes que de imediato surgem na minha mente são: Audi Quattro, Lancia Delta S4, Peugeot 205 T16 e Ford RS200.

É no meio desta amálgama de monstros sagrados que surge o Citroën BX 4TC Evolution. Corria o fatídico ano de 1986, um dos mais negros para o Mundial de Ralis pelos motivos que já aqui descrevemos e que tiveram em Portugal um dos capítulos mais tristes e importantes.

Citroën BX 4TC
O Citroën BX 4TC Evolution foi o primeiro predador da Citroën no lago de tubarões que sempre foi o Mundial de Ralis. Será que tinha argumentos para a batalha?

Foi no pico de força dos Grupo B que a Citroën se juntou ao Mundial de Ralis. À semelhança da Audi, também a Citroën decidiu optar por modelo com motor dianteiro, numa altura em que os Grupo B de motor central começavam a dar sinais de domínio.

O próximo passo seria os Grupo S, mas as mortes de Henri Toivonen e do seu co-piloto Sergio Cresto, colocaram um ponto final nesta categoria mesmo antes da sua estreia.

Como devem calcular, à época, esta configuração obrigava à colocação do motor numa posição muito avançada em relação ao eixo dianteiro, para que fosse possível acomodar o sistema de tração integral. Esta distribuição de pesos veio a revelar-se fatal para o Citroën BX 4TC Evolution…

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Citroën BX 4TC
Nesta imagem é possível constatar o quão recuado estava o eixo dianteiro.

Como se não bastasse, o Citroën BX 4TC Evolution também era pesado e pouco potente. O modelo francês recorria a um motor Simca-Chrysler 2.4 litros de 8 válvulas, capaz de debitar pouco mais de 380 cv de potência. Números que ficavam muito aquém da concorrência.

O peso também era elevado. Estava muito acima do limite mínimo imposto pelos regulamentos do Grupo B.

Citroën BX 4TC
Ilustração das «entranhas» do Citroën BX 4TC Evolution.

 

Resumindo e baralhando, o Citroën BX 4TC Evolution tinha um chassis desequilibrado e pesado, e um motor pouco potente e antiquado. Talvez por isso o Citroën BX 4TC Evolution apenas tenha alinhado nos ralis de Monte Carlo, Suécia e Acrópole.

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Destes, o melhor resultado foi um sexto lugar no Rali da Suécia, com Jean-Claude Andruet ao volante.

Humilhada em toda a linha, a marca francesa pouco ou nada podia fazer perante um projeto tão mal nascido. Felizmente para a Citroën, o Grupo B foi extinto para a temporada de 1987 e o BX 4TC Evolution foi prontamente esquecido… ou quase.

A fantástica versão de homologação

Como sabem, à época, as marcas estavam obrigadas a produzir um mínimo de 200 carros para poderem homologar os seus modelos para o Mundial de Ralis. O Citroën BX 4TC não foi excepção.

Citroën BX 4TC
Quem ficou encarregue da produção das 200 unidades obrigatórias do Citroën BX 4TC foi a Heuliez.

Em termos estéticos, o seu aspeto exuberante prometia perfomances avassaladoras. Não era o caso, apesar do aspeto aguerrido; debaixo do capot encontrávamos o mesmo motor Simca-Chrysler 2.4 litros de 8 válvulas, agora com apenas 200 cv de potência e 294 Nm de binário máximo.

Ainda assim, os números não envergonhavam ninguém: 7,1 seg. dos 0-100 km/h e 220 km/h de velocidade máxima.

Citroën BX 4TC

Das 200 unidades que viram a luz do dia em 1988, menos de metade foram vendidas. Agora vem a parte mais interessante… a Citroën decidiu anular o projeto e tentar readquirir as unidades entretanto vendidas, supostamente pelo dobro do preço.

A maioria dos Citroën BX 4TC foram destruídos, mas acredita-se que ainda existam 40 unidades na mão de particulares. Ou seja, hoje valem uma pequena fortuna.

No que a nós diz respeito, achamos o Citroën BX 4TC um modelo apaixonante. O tempo fez-lhe bem. É a testemunha viva de um tempo em que ainda havia romantismo e inocência no desporto automóvel. Dessa inocência nasceu o BX 4TC.

Pode não ser (não é certamente…) a máquina mais memorável da sua época, mas é sem dúvida memorável à sua maneira.

Faz swipe na galeria de imagens do Citroën BX 4TC:

Sabes responder a esta?
Em que hotel é que os pilotos do mundial de ralis assinaram um documento solicitando o fim dos Grupo B?
Não acertaste.

Mas podes descobrir a resposta aqui:

Rally de Portugal: o princípio do fim do Grupo B

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