Elétricos

Na China os carros elétricos poluem mais do que os tradicionais

A aposta da China nos veículos elétricos para reduzir a poluição atmosférica poderá originar o efeito oposto.

Com mais de 1,3 mil milhões de habitantes, a China é o país mais populoso do planeta. É também o maior mercado automóvel mundial, tendo vendido no ano passado mais de 23 milhões de automóveis e este ano ultrapassará os 24 milhões.  Atualmente é o maior emissor de gases de estufa do planeta em termos absolutos. Os mais de 10 mil milhões de toneladas de CO2 (2015) emitidas são o dobro dos EUA e quase o triplo da União Europeia.

Mas o problema não se fica pela emissão de gases de estufa. As cidades chinesas têm uma qualidade do ar deplorável, envoltas num constante smog, prejudicial à saúde humana. E o culpado não é o CO2.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, os grandes inimigos da saúde pública são os compostos de azoto e enxofre que saem dos tubos de escape dos automóveis. Estes gases estão diretamente relacionados com mais de três milhões de mortes prematuras anuais no planeta.

Elétricos, muito elétricos

Mais do que qualquer outra razão, a forte e recente aposta do governo chinês na mobilidade elétrica vai no sentido de combater a poluição atmosférica das suas cidades.

Segundo o plano Made in China 2025, a meio da próxima década, os veículos elétricos terão de ser vendidos ao ritmo de sete milhões de unidades por ano. Uma tarefa complexa - no ano passado venderam-se “apenas” 500 mil e este ano tudo aponta para as 700 mil unidades.

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É já o maior mercado mundial para carros elétricos, mesmo que isto apenas tenha sido conseguido à custa de grandes incentivos estatais, como acontece noutros países.

Para reduzir os custos para o Estado, outro plano está agora em marcha que impõe quotas de vendas às marcas para os chamados NEV (New Energy Vehicle). Um plano que arrancará em 2019 (era para começar em 2018) e o incumprimento das quotas significará avultadas multas.

Não é novidade. A criação de um mercado de créditos de carbono já foi observada em outros mercados, ou seja, mesmo que um construtor não consiga cumprir a quota estabelecida, pode sempre comprar créditos a outras marcas evitando as penalizações.

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Elétricos não são a solução

Seria de esperar que com o aumento de veículos elétricos na estrada, o problema da poluição atmosférica fosse resolvido progressivamente, mas a realidade é mais complexa. O aumento de veículos elétricos terá o resultado oposto! Ou seja, mais elétricos vendidos, mais emissões de gases de estufa.

São as conclusões de vários estudos levados a cabo pela Universidade de Tsinghua, que demonstraram que os automóveis elétricos na China produzem entre duas a cinco vezes mais partículas e químicos, que contribuem para o smog, do que os automóveis com motores térmicos. Como é que é possível?

A experiência internacional demonstra que limpar o ar não depende dos automóveis elétricos. Limpem as centrais de energia.

An Feng, Centro de Inovação para Energia e Transporte

A tecnologia é apenas tão limpa quanto as suas fontes de energia

Os elétricos efetivamente não emitem gases poluentes, mas a energia que necessitam pode advir de uma fonte poluente. Ou seja, as emissões são deslocadas do automóvel para o ponto de origem da produção de energia, e no caso chinês é problemático.

As emissões de um elétrico variam
Com o Fluence Z.E., de 2010, a Renault revelou como as emissões variavam dependendo do país. Na França, onde a energia nuclear é a mais usada, as emissões eram de 12 g/km. No Reino Unido, com maior recurso ao gás e carvão, as emissões subiam até às 72 g/km e no pior dos cenários, dependendo exclusivamente do carvão, as emissões poderiam subir até às 128 g/km.

Isto porque aproximadamente dois terços da energia elétrica consumida na China provém da queima do carvão. Se num curto período de tempo o país passar a ter milhões de carros elétricos a ligarem-se à rede elétrica para carregar as suas baterias, o consumo de energia subirá, queimando mais carvão ou gás, logo, aumentando as emissões.

Na Europa o cenário é diferente

No Continente Europeu, como as energias renováveis já são uma parte expressiva do mix de produção energética, os elétricos comportam-se bastante melhor, contribuindo para uma redução de 10% nas emissões dos gases de estufa. Esta é a conclusão de um estudo norueguês, após considerar todo o ciclo de vida do automóvel: construção, uso (150 mil km percorridos) e a sua derradeira eliminação.

Fontes de energia limpas são necessárias

O estudo da Universidade de Tsinghua põe em causa a decisão de promover agressivamente os automóveis elétricos no país antes de se alterar a forma como se gera a energia elétrica. Uma realidade que o governo chinês também já está ciente e as medidas para alterar esse cenário já foram colocadas em prática. Foram cancelados os planos para construir mais 85 centrais elétricas a carvão e até 2020 o gigante asiático vai investir 360 mil milhões de dólares (mais de 305 mil milhões de euros) em energias renováveis.

Energia Eólica

Só assim o impacto dos elétricos poderá ser benéfico a longo prazo, tanto no seu uso como na sua montagem.

O uso de veículos elétricos e a produção de baterias causam mais poluição na China do que praticamente em qualquer outro lugar. Para agravar a situação, a indústria da reciclagem na China é sub-desenvolvida o que leva à extração de mais recursos, e logo, pior performance ambiental. A título de exemplo, 70% do aço usado nos EUA é reciclado, enquanto que na China é de apenas 11%.

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