Design

Como nasce um automóvel? Um dia com os designers da Mazda

A convite da Mazda fomos conhecer o Centro de Design Europeu da marca, em Frankfurt. Descobrimos também que entre os nossos rabiscos no papel e a realidade de desenhar um automóvel, existe um mundo de diferença.

 

Tal como eu, muitos de vocês já decidiram rabiscar no papel como seria o carro do futuro ou o carro de sonho. Mas entre os nossos rabiscos e a realidade vai um mundo de diferença. Fomos descobrir, a convite da Mazda, no seu centro de design europeu, nas imediações de Frankfurt, como é que os modelos da marca ganham forma e saltam do papel para o mundo real.

Um evento bastante restrito – com apenas dois meios de comunicação portugueses (Razão Automóvel e Observador) – permitiu compreender melhor os princípios por detrás da aclamada linguagem “Kodo – Alma em Movimento” e até colocar as “mãos na massa” – a Mazda deu-nos a oportunidade de criar, em colaboração com os seus designers, um automóvel definido por nós. Mas já lá vamos. 

Kodo. Nos prémios, significa “somar e seguir”

Se existe aspeto dos Mazda atuais que é aclamado tanto pela crítica como pelo mercado é o seu design. Prova do sucesso da linguagem Kodo são os seis prémios Red Dot já atribuídos à marca nipónica, com o Mazda MX-5 RF a ser o último a receber o prestigiado galardão de design.

Kevin Rice, diretor de design europeu da Mazda, ao lado do concept Koeru | © Razão Automóvel

Para compreender como se chega a este ponto, temos de perceber não só a filosofia que está por trás, como o processo que permite a sua expressão visual ideal. Como já foi referido, Kodo tenta expressar movimento, com as mais variadas interpretações. Num extremo temos sensualidade, como podemos observar no Mazda RX-Vision, no outro pureza controlada, como no mais recente CX-5.

O processo para garantir os melhores resultados difere da norma. Na Mazda, a primeira fase desta concepção não começa nos traços rápidos e soltos dos esquissos numa folha de papel. A linguagem Kodo é alma em movimento, e para expressar movimento, trocam-se os papéis e canetas pelo barro e teques. É a sujar as mãos que a magia começa.

Esculpir um automóvel. Porquê?

É através da escultura, da modelação manual do barro, que se consegue encontrar a pureza e simplicidade da estética japonesa. Estas esculturas não tentam dar forma ao automóvel final, mas sim, procuram uma interpretação própria do movimento. São estas esculturas, algo abstractas, que depois de criadas, servem de inspiração aos designers para dar forma aos Mazda que conduzimos na rua.

O objectivo desta abordagem é não só dar vida à forma, sem parecer algo artificial, como permitir o elevar da qualidade do design ao nível do que vemos na arte. Um desafio difícil, dado as condicionantes tecnológicas, regulamentares e industriais do automóvel atual. E como tal, exige a colaboração também da engenharia, que posteriormente terão de “traduzir” e produzir estas formas na realidade da linha de produção, sem comprometer a qualidade da forma final.

A partir daqui o processo é bastante mais familiar: desde os inúmeros “sketch”, ao escrutínio das várias propostas concorrentes, ao render final, regressando ao barro – agora com o objectivo de precisar as linhas, superfícies e elementos do produto final.

“Jinba Ittai”. Desenhar um automóvel à volta do condutor

Ao contrário do exterior, a concepção do interior parte logo para o digital. São dois meses de trabalho entre os primeiros esboços e um render 3D próximo do modelo final. Também é executado um modelo físico, em poliestireno (espuma azul), para melhor percepção das formas, dimensões e dos múltiplos pequenos componentes que compõem o interior. Após aprovação, esses mesmos componentes são realizados numa resina dura, que permite analisar a aplicação dos futuros revestimentos ou a sua união a outros componentes.

Já aqui falámos por diversas vezes da filosofia Jinba Ittai, a relação harmoniosa entre cavalo e cavaleiro. É esta filosofia que também rege o design do interior, com o automóvel a ser concebido à volta do condutor. Tal é conseguido não só a um nível estrutural, com a simetria a ser uma forte aposta, como as linhas do habitáculo são direcionadas ao volante. Como exemplo, basta reparar no pequeno pormenor das saídas de ventilação do novo CX-5, em que parecem setas apontadas ao volante.

A importância da pele

Definimos as formas da carroçaria, criámos um interior apelativo e ergonómico, falta o revestimento. E como é importante a pele – seja pelos materiais, seja pelas cores – para realçar as linhas e a modelação da carroçaria, para conseguir um interior mais aprazível e confortável, e até evidenciar o sentido do tacto.

O departamento de cores e materiais ganha importância vital na “personalidade” final do automóvel. Fundamentada com profunda pesquisa, abarcando até outras áreas como o mobiliário ou os tecidos, também aqui a Mazda consegue a necessária diferenciação.

No interior, essa aturada e contínua pesquisa deu origem a novos materiais compostos, neste caso uma união entre madeira e plástico, que já podemos ver no novo CX-5, gerando uma nova textura, casando o aspecto mais acolhedor da madeira com a maior resistência do metal.

O novo Mazda CX-5, em destaque, é o último elemento da família Kodo. | © Razão Automóvel

No exterior é a procura de pinturas mais profundas, capazes de evidenciar todas as subtilezas da modelação das superfícies. Já conhecíamos a Soul Red, a vibrante cor vermelha que é característica da Mazda. Agora junta-se-lhe a Soul Red Crystal, que casa duas características de difícil conciliação – a profundidade do tom e o brilho. Uma adição de cor num mercado em que a norma é cinzento, onde apenas 5% dos automóveis vendidos apresentam a cor vermelha. Na Mazda essa proporção sobe até os 50%, o que é notável.

Ajudar a desenhar um automóvel: check!

Compreender os fundamentos da linguagem Kodo e perceber os processos por detrás da criação de um automóvel é uma coisa. Pô-los em prática é outra completamente distinta.

O objectivo não era desenhar o próximo Mazda, mas compreender e aplicar os princípios por detrás da linguagem Kodo. Tivemos a oportunidade de colocar as “mãos na massa”: desde experimentar o esculpir do barro a idealizar um automóvel… ou no nosso caso, algo semelhante a um automóvel.

“Gustave estás a ver a grelha do novo Mazda CX-5? Não tem nada a ver.”

A experiência foi um sucesso, mas a complexidade do nosso briefing não abonou nada a favor do resultado final. A nossa ideia era (nada) “simples”: replicar a experiência de condução divertida e entusiasmante de um Mazda MX-5, mas numa “embalagem” totalmente distinta.

A nossa ideia e o resultado final

Tentem visualizar um veículo estreito e baixo, de apenas dois lugares, colocados um atrás do outro. Teria quatro rodas e um volante, mas tanto a carroçaria como as rodas inclinar-se-iam nas curvas, tal como uma moto, ou então, as scooters de três rodas atuais. A carroçaria em si seria fechada, ao contrário de um MX-5, para superior eficácia aerodinâmica. E para permitir maior amplitude de movimentos das rodas e carroçaria, esta última não cobriria totalmente as rodas. Parece simples, não?

À esquerda, Gustave Djon Toug, designer da Mazda. À direita o vosso escriba, a ter o dia da vida dele.

Nem de perto! O resultado final ficou estranho, e os esboços, que procuravam ser a expressão pura de Kodo, acabaram por se aproximar mais do pretendido. Nem a preciosa colaboração do designer que concordou em aceder ao nosso devaneio, Gustave Djon Toug – obrigado pelo excelente diálogo -, conseguiu dar corpo, no pouco tempo disponível, à nossa “criatura” rolante.

No restante grupo de jornalistas, a tendência foi claramente criar um crossover com genes de shooting brake e com resultados bastante mais convincentes. No entanto, todas as propostas passaram, tal e qual no processo de design de qualquer modelo, pela crítica e aprovação não só dos restantes colegas designers como pelo diretor de design do centro europeu da Mazda, Kevin Rice.

Posso dizer que não foi fácil ouvir que a nossa proposta dificilmente poderia passar por um bom representante da linguagem Kodo…i’ll be back Kevin, i’ll be back…