Análise

Tesla Model 3. Será que a marca vai cumprir o que prometeu?

O Tesla Model 3 foi apresentado há aproximadamente um ano. Nessa altura, ficou a promessa que a produção iria arrancar em julho e que as primeiras unidades serão entregues ainda este ano. Como é que está a correr o cumprimento do calendário?

A apresentação do Tesla Model 3 gerou um impacto no mundo automóvel só comparável aos smartphones da Apple. Quase 400 mil pré-encomendas, com um depósito de 1.000 dólares cada, é um fenómeno inédito na indústria. Uma demonstração inequívoca da força da marca Tesla.

A realidade, no entanto, é distinta. Mesmo com as notícias recentes da sua valorização ter passado o gigante Ford, a Tesla ainda é incapaz de lucrar. Teve uma nota positiva no penúltimo quadrimestre de 2016, mas voltou a entrar no vermelho no final do ano.

Neste artigo vamos explorar «a fundo» as ameaças, oportunidades, forças e fraquezas desta marca. Preparem-se, o artigo é longo.

2017 Tesla Model 3

Dinheiro, dinheiro, dinheiro.

As exigências de financiamento para colocar o Tesla Model 3 no mercado são enormes. E nem é preciso referir outros investimentos como a Gigafactory fora dos EUA. De acordo com as últimas notícias a Tesla terá conseguido reunir recentemente mais 1.2 mil milhões de dólares (1.115 mil milhões de euros) destinados ao desenvolvimento do Model 3 e da sua linha de produção.

Caso consigam reunir todo o capital necessário, daqui a 18 meses teremos uma Tesla bem diferente da atual. Deixará de ser construtor de nicho e passará a ser um construtor de volume, ao estar a produzir 500 mil automóveis anualmente. Números semelhantes ao alcançado pela Jaguar Land Rover em 2016.

Conseguirá a Tesla cumprir o seu próprio calendário?

No entanto, historicamente, a Tesla nunca foi capaz de cumprir nenhum dos prazos estabelecidos por si. Para o Model 3 a Tesla parece estar a experimentar uma nova abordagem.

A marca californiana, aparentemente, vai saltar por cima de algumas fases típicas em desenvolvimento automóvel. Nomeadamente, a não produção de protótipos de testes beta.

Tesla Model X, Tesla Model S e Tesla Model 3

Uma das partes mais demoradas do desenvolvimento de um automóvel passa pela produção de protótipos. Podemos colocá-los em dois grandes grupos: os alpha e os beta.

Os alpha, como os Tesla Model 3 que vimos o ano passado, são protótipos iniciais servindo sobretudo propósitos de design, mas muitas vezes usados para ajudar a delinear a futura linha de montagem.

Os beta, mais avançados, são construídos numa linha de pré-produção específica, num mix de métodos industriais e artesanais. São os protótipos que a engenharia recorre para efectivamente saber como construir o modelo final. O seu estado mais avançado já permite que sejam usados para testes no exterior.

O próprio CEO da Tesla, Elon Musk decidiu ignorar os modelos beta e avançar diretamente para modelos de pré-produção. Segundo ele, as ferramentas de análise computacional avançadas que a Tesla concebeu permitem evitar os protótipos beta.

Musk publicou um curto video de um desses modelos já em andamento, com a legenda “release candidate version”, que indica precisamente o estatuto de que se trata de um modelo de pré-produção.

Não será um risco?

O historial da Tesla em relação a problemas de qualidade e fiabilidade é longo, apesar de hoje em dia a situação estar a melhorar. Paradoxalmente, a fraca performance da marca nesses capítulos parece não afetar a percepção dos seus produtos ou da marca.

Segundo um relatório da J.D. Power, os clientes Tesla vêm-se como pioneiros na adopção de uma nova tecnologia. Mesmo quando gastam mais de 100 mil dólares na aquisição de um Tesla, no geral, parecem não se deixar afetar pelos problemas de juventude da marca. A Tesla parece imune a clientes insatisfeitos.

Mas o lançamento do Tesla Model 3 muda tudo. Terá um preço de acesso bem mais baixo (35 mil dólares base nos EUA) e pode muito bem ser o único automóvel do futuro cliente.

Os clientes do Model S e do Model X, por outro lado, têm mais veículos nas suas garagens. Estará o cliente do Model 3 tolerável a “bugs” que o impeçam de usar o automóvel? E conseguirá a Tesla gerir tantos clientes novos de uma vez só?

O que podemos esperar dele?

Para conseguir o preço base prometido de 35 mil dólares a palavra de ordem foi simplificar. Não esperem componentes teatrais como as portas asa de falcão do Model X, que causaram tantas dores de cabeça.

Segundo Elon Musk, o Tesla Model 3 será um Model S mais pequeno e acessível, com menos autonomia, performance e equipamento. Inicialmente, deverá ser vendido exclusivamente com um motor e tracção atrás. Versões com dois motores e tração às quatro rodas só numa fase posterior. As baterias também elas serão de menor capacidade: 50 a 60 kWh para a versão de entrada e 75 kWh para as de topo. Como referência, o Model S já oferece capacidades de 100 kWh.

Mesmo na versão de acesso o Model 3 permitirá uma autonomia de 346 km (segundo normas americanas). Mas pode não ficar por aí. O Chevrolet Bolt consegue 383 km e Elon Musk, num dos seus tweets, deu a entender que os 346 km inicialmente anunciados já não correspondem à realidade. Não vão querer ficar atrás do modelo da GM.

2017 Tesla Model 3 interior

É no interior que o Model 3 demarcar-se-á dos outros automóveis. O protótipo que vimos o ano passado não apresentava painel de instrumentos, apenas um enorme ecrã central. Na altura ignorou-se um pouco tal solução, já que se tratava de um protótipo inicial e que não representaria totalmente a realidade. Mas recentemente, mais uma vez através do Twitter, Musk confirmou que o interior do Model 3 não terá, efectivamente, painel de instrumentos. Toda a informação será disponibilizada apenas no ecrã central de proporções épicas.

MERCADO: A Tesla perde dinheiro, a Ford dá lucro. Qual destas marcas é que vale mais?

E a justificação parece óbvia. O Model 3 irá reforçar a aposta da Tesla nos veículos autónomos. Trará o hardware necessário (radares e câmaras) para conseguir atingir até o nível 5 de automação (o mais elevado). No entanto, os níveis mais elevados de automação não estão ainda regulamentados.

Quando tal acontecer, poderá ser uma simples questão de atualização de software do Model 3 para ser totalmente autónomo. Segundo Musk, se o carro assumirá cada vez mais o papel do condutor, para quê vir com um painel de instrumentos?

O plano

Segundo a Tesla, o objectivo é iniciar a produção do Model 3 já em julho à razão de 1000 unidades semanais. Esse número subirá progressivamente até às 5000 unidades por semana no final deste ano. No final de 2018, Elon Musk quer estar a produzir 10 mil Model 3 por semana.

Caso os números sejam atingidos significará que no final do próximo ano, a Tesla terá produzido cerca de 430 mil Model 3. São mais Model 3 que o número total de veículos elétricos produzidos mundialmente em 2016!

Tesla Model 3 Gigafactory

É a grandeza destes números que colocam imensas dúvidas sobre a sua exequibilidade. Não só pelas dúvidas do plano megalómano de expansão, como pela capacidade do mercado em absorver um fluxo enorme e repentino de veículos elétricos.

Todos os analistas e até outros construtores acham que tal não irá acontecer, tendo em conta o que se sabe do mercado automóvel e de como as pessoas gastam o seu dinheiro hoje em dia. Não que não possa acontecer, mas as probabilidades de acontecer é que parecem jogar contra a Tesla.

Tesla contra quem?

A Tesla já não está sozinha na sua ofensiva elétrica. A GM já comercializa o Chevrolet Bolt (Opel Ampera-e) e no próximo ano chegarão uma série de novos modelos elétricos: Audi, Mercedes-Benz e Jaguar vão atacar o segmento premium com novos crossovers zero emissões, enquanto a Nissan irá lançar a nova geração do Leaf. A concorrência está a crescer, proveniente de marcas mais estabelecidas, o que poderá pôr em causa as ambições expansionistas da marca americana.

Para terminar, e reflectindo a natureza arriscada das decisões sobre o desenvolvimento do Model 3, os primeiros milhares de unidades produzidas serão distribuídos pelos próprios empregados da Tesla.

Estes servirão de piloto de testes, ou indo buscar um termo mais comum a IT, beta testers.  A sua missão será identificar eventuais falhas e “bugs” no novo e vital modelo, acelerando o processo de “limar de arestas” antes de começarem a chegar às mãos dos clientes definitivos.

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