Walter de Silva: o homem que mudou a face do Grupo VW

Alfa Romeo, Seat, Audi e Volkswagen são apenas alguns exemplos de marcas que Walter de Silva mudou por completo. A retrospectiva à carreira de um dos mais importantes designers da indústria automóvel.

No final deste mês Walter de Silva cessará as suas funções como director de design do Grupo Volkswagen. Um anúncio que apanhou a indústria automóvel de surpresa, e que surge sem que tenham sido avançadas quaisquer razões para esta decisão abrupta – os rumores em torno da sua demissão são muitos, até porque Walter de Silva só chegará à idade de reforma em fevereiro do próximo ano.

Terá sido por causa do escândalo dieselgate? Será que foram os planos de contenção de despesas no Grupo VW (departamentos de design incluídos) que afastaram Walter da Silva? O lugar deixado vago por si será novamente preenchido? É certo que não há insubstituíveis, mas não será fácil encontrar alguém capaz de substituir um homem que foi, em simultâneo, responsável máximo pelo design de todos os modelos de um dos maiores grupos industriais do mundo.

É impossível concentrar uma carreira de 43 anos num punhado de parágrafos. Mais difícil ainda se torna quando a sua vasta obra inclui design automóvel, industrial e de interiores – a carreira de Walter de Silva dava um livro de lombada grossa. Dito isto, fiquem com o resumo possível da sua longa carreira, focado naturalmente no seu papel na indústria automóvel.

Uma carreira marcada pelo sucesso

Walter de Silva, nasceu em Itália em 1951, e iniciou a sua carreira no Centro de Estilo da Fiat em 1972, saindo em 1975 para o Studio R. Bonetto, onde trabalhou na área de design de interiores. Em 1979 assumiu o papel de director de design industrial e automóvel na I.De.A e aí permanece até 1986, onde após uma brevíssima passagem pela Trussardi Design Milano, assumiu as funções de designer na Alfa Romeo.

“Foi da sua autoria um dos elementos-chave da identidade visual da Audi: a grelha de moldura única (single frame)”

Já como director de design da marca italiana, supervisionou e aprovou o desenvolvimento de propostas a concurso para os mais variados modelos. Foi assim com o 155, de autoria de Ercole Spada (I.De.A), com o intrigante 145, da autoria de polémico Chris Bangle e culminando com os GTV e Spider por Pininfarina.

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Foi através da sua própria mão que a Alfa Romeo conheceu um dos seus melhores momentos (se não o melhor…) da sua história recente, quando nos deu a conhecer em 1997 o piu bello Alfa Romeo 156.

Foi o início de uma nova era visual para a marca italiana. A Alfa Romeo abandonou o estilo geométrico, plano e vincado que acompanhava a marca à largos anos, e substituindo-o por uma linguagem mais orgânica e depurada – fundindo elegância e dinamismo de forma coesa e harmoniosa, inspirada pelas referências das décadas de 50 e 60, como o Giulietta e o Giulia.

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Deste período também derivam os Alfa Romeo 166 e 147 – ainda que estes modelos tenham entrado em comercialização numa altura em que Walter de Silva já tinha abandonado a Alfa Romeo e rumado para a Seat em 1998, a convite de Ferdinand Piech.

O convite surgiu da vontade da Volkswagen em querer transformar a marca espanhola numa espécie de Alfa Romeo da Volkswagen: uma marca dinâmica, eminentemente desportiva mas ao mesmo tempo generalista. Para isso, nada melhor do que “roubar” à marca italiana o designer que conseguiu isso.

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Walter de Silva cumpriu. O referencial concept Salsa no ano 2000 serviria de manifesto visual para os futuros Seat. Infelizmente faltaram modelos que acentuassem essa veia mais desportiva pretendida para a marca. O novo estilo individualista, dinâmico e latino que o Salsa estreou, daria origem a veículos de carácter prático e familiar, como o Altea ou o Leon.

“Uma carreira longa, rica e marcante, com mais de quatro décadas, levou a que em 2011 recebesse o prestigiado Compasso d’Oro”

Falando nisso, ainda não perdoámos o Grupo Volkswagen pelo facto de não terem passado o entusiasmante Tango para a linha de produção. Teria sido um sucesso:

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Em 2002 Walter de Silva, foi promovido a director de design no, então denominado, grupo Audi, onde se incluía a Audi, a Seat e a Lamborghini.

Seria da sua autoria um dos elementos-chave da identidade visual da Audi: a grelha de moldura única (single frame), que resultou da fusão da grelha superior e inferior num único elemento. Este traço, que se mantém até aos dias de hoje, garantiu à marca de Ingolstadt o elemento de design forte, intemporal e marcante que lhe faltava.

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Durante este período saiu ainda do seu génio modelos como o Audi A6 de 2005, o primeiro Q7, a segunda geração do TT, o Audi R8 e o Audi A5 – este último, referenciado por de Silva como a sua obra-prima. Em 2007, Martin Winterkorn assume o cargo de presidente do grupo Volkswagen, após dirigir a Audi, e leva com ele Walter de Silva, que é promovido a diretor de design de todo o grupo.

Desde então, as suas funções focaram-se sobretudo na criação e gestão de uma cultura e metodologia de design comum a todo o grupo, garantindo autonomia criativa a todas elas. Independentemente da anunciada autonomia criativa, sob a batuta de Walter de Silva o resultado foi uma crescente e criticada convergência estética de todos os modelos, sobretudo das marcas de volume: Volkswagen, Audi, Seat e Skoda.

Apesar de alguns elementos visuais distintos, as premissas visuais parecem ser comuns: uma estética depurada – em alguns casos a tender para o minimalismo e influenciada pelo design de produto -, superfícies tendencialmente planas e rigorosamente delimitadas, intersectadas por uma ou duas linhas bem vincadas, adicionada de elementos definidos por contornos rectilíneos, de vértices bem salientes.

A lista de modelos e concepts é vasta desde que assumiu as funções de supervisão geral do design do grupo, mas destacam-se modelos como o Volkswagen Golf 7 ou o Volkswagen up!, Lamborghini Aventador ou o Audi Prologue que anunciou a nova linguagem da marca, entre muitos outros.

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Já este ano, em Setembro, assumiu em paralelo o lugar de presidente da Italdesign (adquirida pela Audi em 2010), após a saída abrupta do fundador Giorgetto Giugiaro e do seu filho Fabrizio. Com o seu pedido de demissão, também as funções na Italdesign serão terminadas – apesar de ter apenas ocupado esse lugar durante dois meses.

Uma carreira longa, rica e marcante, com mais de quatro décadas, levou a que em 2011 recebesse o prestigiado Compasso d’Oro, uma das mais altas distinções atribuídas a um designer. Apesar da saída, de Silva continuará ligado ao grupo Volkswagen como consultor, e, apesar de não haver planos imediatos para o futuro, esperemos que o designer se mantenha no activo.

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