Coleção Baillon: uma centena de clássicos deixada à mercê do tempo

Diretamente de terras napoleónicas, mais precisamente de um celeiro, apresentamos-vos a história completa da Coleção Baillon. As imagens são magnéticas, ninguém ficará indiferente.

Lembram-se quando há um ano atrás vos falámos dos mais de 100 clássicos abandonandos? Hoje trazemos a história completa. Pormenor a pormenor. Já podem contá-la aos vossos filhos na hora de deitar…

Tudo começou com um telefonema anónimo a um especialista de uma leiloeira francesa. Pierre Novikoff, da Artcurial Motocars, não fazia ideia do que o esperava do outro lado da linha. Quando desligou a chamada também não, mas pelas informações que recolheu ficou com o pressentimento de que podia estar perante algo em grande…

Imediatamente colocou o seu Diretor Executivo, Matthieu Lamoure, ocorrente da situação e ambos fizeram-se à estrada, em busca da coleção de clássicos que poderia ser a maior de todos os tempos.

“Atravessámos os jardins e podíamos ver pequenas estruturas espalhadas por três hectares. Pequenos abrigos abertos e, por baixo, carroçarias expostas aos elementos. Percebemos que aqueles carros tinham sido postos ali há 50 anos e nunca mais tinham sido mexidos. Quase todos os automóveis estavam bastante maltratados, enferrujados, muitos tinham virado viveiro de trepadeiras. Apenas dois automóveis estavam mais protegidos, fechados num celeiro a fazer de garagem improvisada mas, mesmo aqui, um estava debaixo de uma pilha de velhas revistas atiradas lá para cima.” Matthieu Lamoure

Quem é amante de automóveis, sabe que por vezes acontecem destes “achados”: carros abandonados, escondidos algures em barracões esquecidos. Com “sorte” mais do que um. Com “muita sorte” um deles é uma raridade. Novikoff tinha a sensação de que este ia ser um desses “achados”. Mas acreditem, nem com todo o optimismo do mundo podia ter adivinhado o que estava prestes a ver, naquela propriedade enferrujada, no oeste de França.

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Confirmou-se, Pierre e Matthieu estavam perante a descoberta do século! Os coleccionadores mais ferranhos iam ter, pelo menos, um ataque cardíaco quando soubessem da boa nova. Os dois especialistas chegaram a comparar as suas sensações à de Howard Carter, o arqueólogo que descobriu e entrou pela primeira vez no túmulo de Tutankamon.

“Sabiam que ao longo dos últimos dez anos, nenhum outro investimento de luxo teve margens de rentabilidade superiores à dos automóveis clássicos?”

Aqui, em vez de hieróglifos, liam-se nomes que não precisavam de tradução: Bugatti, Hispano Suiza, Talbot Lago, Maserati, Ferrari, Panhard Levassor, Delayhe, Delage… A lista de nomes lendários não tinha fim e os dois só se perguntavam como era possível uma colecção destas ainda existir completamente desconhecida. Confiram a lista pormenorizada aqui.

“É certamente a última vez que uma descoberta assim aconteceu. O que esta colecção tem de tão magnifico é o número de carros envolvidos, a sua abrangência (desde os primórdios do automóvel até aos anos 70) e a qualidade do pedigree dos modelos”, disse Pierre. Lamoure acrescenta: “e ainda por cima estão todos numa condição tão próxima do original.”

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A maioria dos modelos encontrados tinham realmente um ADN de luxo: carroçarias personalizadas por nomes como Million-Guiet, Frua, Chapron e Saoutchik. Tudo automóveis com histórias documentadas mas que se julgavam perdidos no baú para sempre.

Quando Matthieu contou ao historiador da Talbot que tinha encontrado um Talbot Lago T26 Record Coupé de Saoutchik, a única reacção possível foi entrar em estado choque. “Quando recuperou bombardeou-nos com perguntas”, disse Matthieu. Se quiserem também vos falamos do Ferrari 250 GT SWB California Spider, um dos mais míticos e raros Ferraris, do qual apenas se construíram 37 unidades. Também lá estava, coberto de pó.

Mas qual era, afinal, a história por detrás desta colecção? Como é que era possível ela existir naquelas condições? Ao que parece, na propriedade estavam vários camiões da empresa “Transports Baillon”. Roger Baillon foi um empresário francês da área dos transportes e fabricante de camiões que há 60 anos atrás começou a investir boa parte da sua fortuna acumulada para, ao longo de décadas note-se, construir uma impressionante colecção automóvel. Na década de 70 do século passado, após a sua morte, a “Colecção Baillon” teria sido vendida, numa única grande venda, essa bem documentada. E o erro reside aqui. Nunca ninguém imaginou que pudesse existir uma segunda parte da colecção, esquecida algures numa propriedade em França, com um valor histórico e monetário inigualável.

À medida que o assunto se tornava público, ondas de choque eram geradas no pequeno mas global mundo dos coleccionadores de clássicos. Ondas essas que foram aumentando à medida que se aproximava o leilão onde a colecção seria posta à venda – o que aconteceu no passado mês de Fevereiro, durante o prestigiado salão de automóveis clássicos de Paris, Retromóbile 2015.

Sabiam que ao longo dos últimos dez anos, nenhum outro investimento de luxo teve margens de rentabilidade superiores à dos automóveis clássicos? Valores de 487 % a dez anos, 140 % a 5 anos e 20% a um ano. Nenhum produto “coleccionável” chegou sequer perto destas exorbitâncias.

Matthieu Lamoure podia agora sorrir, satisfeito – os valores de venda superaram quaisquer expetativas.

Só para ficarem com uma ideia, um Singer Roadster cujo valor de venda estava estimado entre 200/800 euros, foi vendido por 10.238 euros. No total, o leilão rendeu mais de 46 milhões de euros, 28.500 dos quais respeitantes à “Colecção Baillon”. Deixamos uma pequena lista a quem ficou com o apetite aguçado:

Voisin Type C3 de 1923:
Estimativa: 1500/2000 euros. Vendido: 52 448 euros.

Voisin Type C24 limousine:
Estimativa: 15 000/20 000 euros. Vendido: 114 432

Hispano Suiza H6B Cabriolet Million Guiet 1925:
Estimativa: 200 000/ 300 000 euros. Vendido por 572 160

Talbot Lago T26 Record Cabriolet Saoutchik 1948:
Estimativa: 120 000/150 000 euros. Vendido: 745 000

Claro que depois existem os os carros que passaram a barreira do milhão de euros, como o Talbot Lago T26 Grand Sport SW Saoutchik de 1949, com uma estimativa entre os 400.000 e os 600.000, vendido por 1.702.000 euros a um comprador europeu. E quanto aos dois carros encontrados no celeiro? O Maserati A6G 2000 Gran Sport Berlinetta, com carroçaria Frua, de 1956 e o Ferrari 250 GT SWB California Spider de 1961? Para o Maserati a estimativa mais alta colocava o seu valor no milhão e duzentos mil euros – foi vendido por 2.010.880 euros a um norte-americano. Já o Ferrari era claramente a peça mais valiosa da colecção, com uma estimativa entre os nove milhões e meio e os doze milhões – ultrapassou a barreira dos dezasseis milhões: 16.288.000 euros, para sermos exactos. Este último foi vendido a um não identificado comprador internacional.

Nada mau para um achado de celeiro, não acham? Percebam agora o romantismo inerente a esta história:

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