Smart Fortwo: até para quem não gostava…

Durante quatro dias fui transportado pelo Smart Fortwo para uma realidade paralela. A tribo smart cumprimentou e disse-me: bem vindo à tribo.

Não existem muitos carros como o Smart Fortwo, e não é por causa do inconfundível formato da carroçaria. O Smart Fortwo é diferente por outras razões. Há poucos automóveis que constituam para os seus proprietários uma afirmação tão clara de um certo estilo de vida como o Smart. Uma marca ligada à moda, ao trendy, ao urbano, à modernidade e a todo esse léxico social-tech-gourmet-hipster-não-sei-das-quantas. Enfim, ligado a tudo aquilo que um tipo como eu, à ‘beira dos 30’, sem muita pachorra, nascido e criado nos confins do Alentejo, tem dificuldades em gramar. Sim, eu sei! Nem todos os donos de smart são assim, até porque os novos Smart Fortwo e Forfour parecem agrada a públicos de todas as idades… Mas assumida essa tendência para a diferença, importa explicá-la.

“(…) o melhor elogio que posso tecer ao novo Smart Fortwo é que ele se comporta como um verdadeiro Smart em cidade e como um carro convencional em estrada”

O Smart Fortwo é diferente porque nos transporta para uma realidade paralela. Uma realidade onde os condutores Smart se cumprimentam, acenam e trocam sorrisos. Farto-me de andar em carros diferentes, mas este caramba!, este transporta a diferença para os seus proprietários. Volto a repetir: nem todos os proprietários, cruzei-me com muitos engravatados sisudos. Mas tendencialmente não é assim.

Já tinha escrito à uns tempos, que achava engraçado como a malta dos Smart se comporta como uma espécie de tribo. Fazem festas, fazem encontros, etc. E agora, pela primeira vez vivi essa experiência por dentro, ao entrar na tribo. Senti-me um verdadeiro David Attenborough a estudar uma espécie nova.

Dou de barato que a minha experiência talvez tenha sido mais intensa pelo fato deste Smart Fortwo ser novo em folha (ainda não tinha 100km rodados) e ter uma cor fora do convencional, não sei. A verdade é que achei piada à camaradagem e simpatia que recebi das dezenas de condutores que elegeram o Fortwo como meio de transporte, como que a dizerem-me “sê bem vindo ao clube, oh novato”.

Como o título deste teste deixa perceber, eu não ia muito ‘à bola’ com o Fortwo. Para além da facilidade de estacionamento, da fiabilidade titânica das versões CDI e dos consumos, não entendia porque ‘carga de água’ as pessoas se sujeitavam ao desconforto da suspensão, à lentidão da caixa e às performances deploráveis da primeira geração de um carro que não era assim tão barato.

Com a segunda geração, as coisas melhoraram substancialmente mas ainda assim, não o suficiente para o vosso escriba de serviço mudar de ideias. Quanto a mim, o Smart Fortwo era, acima de tudo, uma forma de afirmação pessoal – o tal social-tech-gourmet-hipster-não-sei-das-quantas.

Era, mas deixo de ser. Esta terceira geração do Smart Fortwo, desenvolvida em parceria com a Renault, deu um salto qualitativo imenso. Tal como os seus antecessores, continua prático e fácil de estacionar, mas ao contrario desses, agora comporta-se bem em estrada e é relativamente confortável.

Nesta versão equipada com o motor 0.9 turbo de 90cv com caixa de dupla-embraiagem também é despachado, não só em cidade mas também em estrada. Só é pena os consumos algo elevados, sempre acima dos 6 litros – ainda que tal consumo possa estar relacionado com a pouca quilometragem desta unidade. Por seu turno, a caixa de dupla-embraiagem merecia também um modo intermédio, mais expedito que o modo ECO e menos radical que o modo SPORT.

Continuando a análise dinâmica, o melhor elogio que posso tecer ao novo Smart Fortwo é que ele se comporta como um verdadeiro Smart em cidade e como um carro convencional em estrada. Algo definitivamente fora do alcance das gerações anteriores. O motor de 90cv é mais do que suficiente mas arrisco a dizer que a versão de 71cv será mais ajustada.

Em cidade, é aquilo que sabemos. Super fácil de conduzir e arruma-se literalmente em qualquer buraco. O raio de viragem é tão pequeno que o Fortwo quase que roda sobre si mesmo. Quanto à mala, chega e sobra para a 99% das necessidades diárias.

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Por dentro, os plásticos são todos rijos e as peças do grupo Renault-Nissan são uma constante. No entanto a montagem não compromete muito e o design é bastante inspirado. Vive-se bem a bordo do pequeno alemão com tiques franceses. A posição de condução não foi totalmente do meu agrado, mas deve ser um problema meu porque todas as minhas amigas que conduziram o Smart adoraram “andar lá em cima” – e não rapazes, o Smart não é carro de senhora.

As opções de personalização, como sempre, são imensas. Às dezenas de combinações de cor exteriores junta-se imensas possibilidades no interior, o que torna difícil haver dois Fortwo exatamente iguais. O preço desta unidade não é muito convidativo: 16.295 euros (todos os detalhes desta unidade aqui). Um valor pelo qual já seria de esperar elementos quase obrigatórios como uns faróis com acendimento automático, por exemplo. Para as bolsas menos abastadas o Smart Fortwo está disponível a partir de 10.950 euros com o motor 1.0 de 71cv e caixa manual (tabela de preços aqui).

Confesso que depois de ter andado com ele estes dias, passei a gostar do conceito. Logo eu, que dizia não gostar do Smart Fortwo. Talvez um dia volte à tribo… tenho saudades de encontrar lugar em qualquer buraco, de serpentear no transito e ser diferente.

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