Audi S1 Sportback: um ato de coragem (e loucura…)

O Audi S1 Sportback é um concentrado de potência, grip e maluqueira nascido da mente de alguns engenheiros da Audi. Tem um grande defeito: não tem o meu nome no registo de propriedade.

Num dia soalheiro, a administração da Audi deixou de lado os manuais de gestão, os relatórios do departamento financeiro e as recomendações do Comité de Moral e Bons Costumes da Paróquia de Ingolstadt – não sei se existe, mas é provável que exista. Quero acreditar que foi desta sucessão de acontecimentos que nasceu o Audi S1.

Digo isto porque de um ponto de vista puramente racional o Audi S1 não faz sentido absolutamente nenhum. A marca sabia à partida que as vendas nunca iam ser significativas (com excepção de alguns mercados atípicos), que o preço final ia ser elevado e que os custos de desenvolvimento talvez nunca fossem cobertos. Num dia normal, estes fatores teriam sido suficientes para a administração da marca «chumbar» e ordenar a incineração imediata do projeto.

Mas num dia anormal – como eu acredito que foi aquele  – a marca aprovou o Audi S1 com um sorriso nos lábios. Estou a imaginar Rupert Stadler, CEO da Audi, a mandar calar metade do conselho de administração da Audi, só para ouvir a opinião de um engenheiro entusiasta. Nessa reunião, imagino um engenheiro alemão de meia idade – com sangue latino nas veias e saudades dos anos 80 no coração – a tomar da palavra para dizer o seguinte: “Senhor Stadler a ideia é simples! Pegar num Audi A1, enfiar-lhe um motor 2.0 turbo e um sistema de tração Quattro entre os eixos e dar ao Audi Quattro um netinho. Era giro não era?”.

Imagino o departamento de marketing a dar pulos de contentamento na cadeira. Imagino o departamento financeiro a enfiar calmantes à lá carte pela goela abaixo enquanto pede apoio ao Comité de Moral e Bons Costumes da Paróquia de Ingolstadt para travar esta loucura. Eu sei, tenho muita imaginação…

“Se até agora o S1 era um concentrado de defeitos (consumos e espaço), daqui para a frente passou a ser um poço de virtudes. Eram 6 horas da manhã e estava na A5 a tomar o pequeno-almoço. Destino? Serra de Sintra.”

Do ponto de vista emocional, o S1 faz todo o sentido. É rápido, é potente, é bonito e parece um mini-WRC. Em suma: um digno sucessor do histórico Audi Quattro. Do ponto de vista racional, a história é outra: é um disparate absoluto com 3975mm de comprimento e 1746mm de largura.

Feita a devida apresentação ao hipotético nascimento do Audi S1, quero contar-vos como foi privar com este modelo, que na minha modesta opinião foi efetivamente um ato de coragem da administração da Audi. Afinal de contas, quem é que ousaria equipar um utilitário com um motor 2 litros turbo, mais de 200cv e tração integral? A Audi pois claro.

O Audi S1 é a prova de que o espírito do mundial de ralis ainda corre nas veias daquela rapaziada – sim, isso mesmo, rapaziada! Quando o assunto é desportivos, até o CEO da Audi é um de nós. Boys will be boys

A primeira sensação ao volante do S1 é de que se trata de um Audi A1 completamente normal. Não fosse a nota de escape mais profunda, e diria que estava aos comandos de um Audi convencional. Feitos os primeiros quilómetros em cidade começam a surgir as primeiras diferenças para o Audi A1 normal. Por um lado os consumos nada simpáticos, por outro a simpatia dos olhares de quem cruza connosco.

Toda a gente quer dar uma voltinha no S1. Os quatro escapes, as enormes jantes e as entradas de ar dianteiras num modelo tão compacto resultam muito bem. O problema é que rodar em cidade e fazer a vontade aos amigos e às amigas tem um custo elevado: cerca de 11l/100km. Ufa…

“Chegado a Sintra, deu-se início ao festival de curvas. Curva para esquerda, curva para a direita e o Audi S1 sempre com uma compostura digna de uma bailarina clássica: sem mácula.”

Audi S1-16

Para além disso, convém não levar mais do que um passageiro de cada vez. No Audi S1 o espaço atrás está muito confinado. O banco de trás é duro e alto devido à necessidade de acomodar o sistema Quattro e o espaço que os bancos dianteiros ocupam também não ajuda. A bagageira também é mais pequena no S1. Porque a bateria não coube no cofre do motor, os engenheiros tiveram de a meter na bagageira para acomodarem o motor 2.0 TFSI.

“(…) graças ao sistema Quattro podemos improvisar um pouco mais: travar muito tarde, apontar o carro para o interior da curva e esmagar o acelerador como se não houvesse amanhã”

Depois de um dia em Lisboa para cá e para lá, consegui finalmente desenvencilhar-me do trânsito e de alguns compromissos profissionais que me obrigavam a trocar o volante do S1 pelo teclado do computador (este onde escrevo agora). Era altura de colocar à prova as credenciais dinâmicas do netinho do Audi Quattro.

Se até agora o S1 era um concentrado de defeitos (consumos, espaço, etc), daqui para a frente passou a ser um poço de virtudes. Eram 6 horas da manhã e estava na A5 a tomar o pequeno-almoço. Destino? Serra de Sintra. Piso? Completamente molhado. Sono? Imenso. Mas ia passar…

Audi S1-11

Foi a caminho de Sintra que reparei que o Audi S1 tinha reprogramado o meu cérebro, sem que tivesse notado. Circular a mais de 100km/h na A5 enquanto chove copiosamente, num carro normal seria uma inconsequência. No Audi S1 não se passa nada. Era eu, o sistema de som Bose, uma sandes na mão e uma sensação de estabilidade assinalável. Pensei “é melhor abrandar”. Serviu para ficar a saber que circulando a 90km/h é possível gastar ‘apenas’ 9,1l/100km.

Chegado a Sintra, deu-se início ao festival de curvas. Curva para esquerda, curva para a direita e o Audi S1 sempre com uma compostura digna de uma bailarina clássica: sem mácula. À medida que a minha confiança aumentava, os sistemas de apoio à condução iam sendo desligados, até que não sobrou nenhum. Por esta altura já estava feliz por ter trocado o calor do lençóis pelos calafrios da estrada.

01- Audi S1

Desligadas as ajudas, a postura ballet clássico deu lugar a um postura heavy metal. O eixo dianteiro deixou de marcar passo sozinho e passou a dividir as atenções com a traseira. Confesso que estou pouco habituado às lides da tração integral, e tive de mudar a minha abordagem às curvas e o meu estilo de condução.

“Definitivamente, o que a Audi fez com o Audi S1 é notável. Temos de colocar isto em perspetiva. Estamos a falar de um carro com menos de 4 metros de comprimentos que dá 250 km/h”

Enquanto num tração dianteira tentamos levar o máximo de momento linear para o interior da curva, no Audi S1 graças ao sistema Quattro podemos improvisar um pouco mais: travar muito tarde, apontar o carro para o interior da curva e esmagar o acelerador como se não houvesse amanhã. O Audi S1 sai das curvas tão rápido quanto os 235cv permitem (e permitem muito…) e o sistema Quattro encarrega-se de meter a potência no chão. Simples.

04- Audi S1

Nota-se que o sistema dá primazia ao eixo dianteiro, e que a transmissão de potência às rodas de trás podia (devia…) ser mais rápida e em doses mais contundentes. Ainda assim, o S1 é um mini-foguete com rodas. Uma escola de condução interessante, onde qualquer um pode tentar aprender os primeiros truques. Apesar da distância entre eixos ser pequena, não há sensações bruscas. O S1 comporta-se como um bloco e deixa os mais incautos errar sem passar um fatura cara. Leia-se, sair de estrada, abraçar carinhosamente uma árvore ou fazer um peão.

Não é o desportivo mais excitante de sempre, porque talvez nos facilite demasiado a vida, mas é muito divertido de conduzir. Estou desconfiado que mesmo numa pista de gelo o S1 seria capaz de acelerar dos 0-100km/h nos 5,9 segundos anunciados pela marca. Quanto à velocidade máxima, fica-se por uns interessantes 250 km/h. 

Defeitos? Como já disse, o S1 peca pelo conforto dos lugares traseiros, pelo espaço da mala, pelos consumo e, acima de tudo, porque o registo de propriedade não tem o meu nome. Virtudes? Imensas. Vai ser um clássico!

Tenho dúvidas que a Audi lance mais alguma vez um carro desta natureza: chassi pequeno, motor grande e tração integral. Só é pena o preço, que deve ser equivalente ao preço por m2 de um apartamento em Nova Iorque com vista para o Central Parque. Na unidade ensaiada o preço ascende aos 50.000€ (na ficha técnica há um link com o preço detalhado).

09- Audi S1

É verdade! Quase me esquecia de referir algo que considero muito importante. Os «tiques e taques» que o S1 emite quando desligamos o carro, provenientes do metal da linha escape a arrefecer. São tão audíveis que num raio de 5 metros qualquer pessoa consegue ouvir e imaginar o que andámos a fazer. E isso deixava-me com um sorriso rasgado e comprometido no rosto. Talvez sejam estes pequenos detalhes que fazem a diferença.

Definitivamente, o que a Audi fez com o Audi S1 é notável. Temos de colocar isto em perspetiva. Estamos a falar de um carro com menos de 4 metros de comprimentos que dá 250 km/h e é mais potente que muitos dos «monstros sagrados» aos quais prestamos reverência: Audi Quattro; Lancia Delta HF Turbo Integrale; e podia continuar…

Começa a ser tempo de deixarmos de ser tão pessimistas quanto ao futuro da industria automóvel – por mim falo, vejam aqui. As marcas têm se esforçado muito para nos mostrarem como estamos errados. A cada geração que passa, são muitos os modelos que vão inscrevendo o seu nome na história. O Audi S1 é um deles.

 

Fotografia: Gonçalo Maccario

MOTOR 4 Cilindros
CILINDRADA 1999 cc
TRANSMISSÃO Manual 6 Vel.
TRAÇÃO Dianteira
PESO 1340 kg.
POTÊNCIA 231 CV / 5000 rpm
BINÁRIO 375 NM / 1500 rpm
0-100 KM/H 5,9 seg
VEL. MÁXIMA 250 km/h
CONSUMO (anunciado) 7,3 lt./ 100 km
PREÇO  desde 39.540€ (detalhes do preço da unidade ensaiada aqui)

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