Fiat: A estratégia para os próximos anos

Tal como para outros construtores europeus, os anos pós-crise não têm sido fáceis para a Fiat. Já vimos planos definidos, redefinidos, esquecidos e recomeçados. Parece que, finalmente, existe clareza estratégica no futuro da marca.

As razões para tantas alterações de planos, deve-se a conjunto enorme de factores.

A começar, a crise de 2008 originou uma contracção no mercado, que só agora, em finais de 2013, começa a mostrar sinais de recuperação. O mercado europeu já perdeu mais de 3 milhões de vendas ao ano, desde o início da crise em 2008. A contração do mercado expôs a Europa a uma sobre-capacidade produtiva, não rentabilizando as fábricas e a uma guerra de preços entre construtores, com descontos generosos, que esmagaram todas as margens de rentabilidade.

Os construtores premium, mais saudáveis e menos dependentes do mercado europeu, têm feito investidas nos segmentos mais baixos e hoje em dia são fortes concorrentes nos segmentos mais populares, como o segmento C, e por outro lado, o sucesso crescente das marcas coreanas e até de marcas como a Dacia têm sufocado os construtores tradicionalmente populares como a Fiat, Peugeot, Opel, entre outros.

Fiat500_2007

No caso da Fiat, acrescem problemas como a gestão e sustentabilidade de marcas como a Alfa Romeo e Lancia, lacunas na sua gama e modelos cada vez mais envelhecidos, à espera de sucessor, com poucos argumentos perante os rivais. Aparecimento de novos produtos parecem ser a conta-gotas. A entrada da Chrysler no grupo em 2009 e a recuperação desta, é uma história de sucesso.

Incrivelmente, a Fiat não pode usufruir dos lucros da Chrysler, para financiar a sua própria recuperação, consequência de um complexo processo de fusão dos dois grupos, de momento ainda à espera de solução.

Na Europa nem tudo é mau. Dois modelos da marca continuam a ser incontornáveis e tornam-se as melhores hipóteses de sustentabilidade e sucesso para o futuro da Fiat: o Panda e o 500. Líderes do segmento A, parecem intocáveis, mesmo com o aparecimento de novos rivais.

O 500 é um verdadeiro fenómeno, mantendo vendas em números expressivos, apesar de já estar a caminhar para o seu sétimo ano de vida. Além do mais, garante margens de rentabilidade inigualáveis e inalcansáveis seja qual for o rival. O Panda, mais dependente do mercado doméstico para ser o número um, continua a oferecer um mix de praticalidade e acessibilidade e baixos custos de utilização que o tornam numa das referências do segmento. Apostam em alvos bastante distintos, mas ambos são fórmulas de sucesso, e são os modelos que servirão de base para o futuro da marca durante a restante década.

fiat_panda_2012

Olivier Francois, CEO da Fiat, afirmou recentemente à Automotive News Europe: (traduzindo da citação original em inglês) A marca Fiat tem duas dimensões, Panda-500, funcional-aspiracional, cérebro esquerdo-cérebro direito.

Assim, dentro da marca Fiat teríamos duas gamas ou dois pilares perfeitamente distintos nos seus alvos. Uma família de modelos prática, funcional e acessível, características omnipresentes no Panda. E uma outra, mais aspiracional, com estilo e personalidade mais vincado, de modo a mais eficazmente competir na parte premium de cada segmento em que estiver inserido. Como termo de comparação, encontramos semelhanças na recentemente anunciada estratégia para o futuro da Citroen, ao também repartir os seus modelos em duas linhas distintas, a C-Line e DS.

De acordo com fontes da empresa e de fornecedores, parece ser a estratégia mais provável a implementar até 2016, expandido, renovando e originando novos modelos integrados ou na família Panda ou na família 500.

Começando com o Panda que já conhecemos, deveremos ver a gama reforçada com um Panda SUV, de carácter mais aventureiro que o actual Panda 4×4, sucedendo ao Panda Cross da geração anterior. Apesar de recentes notícias terem desmentido o aparecimento de um Abarth Panda, ainda assim é provável que apareça uma versão mais desportiva, equipado com o pequeno Twinair de 105cv, sucedendo ao Panda 100HP, incompreensivelmente, nunca vendido em Portugal.

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Subindo uns degraus em segmentos, iremos encontrar um Panda de maiores dimensões, assente na plataforma do Fiat 500L, e tudo aponta para um crossover nos moldes do Fiat Freemont. Ou seja, uma fusão entre as tipologias MPV e SUV, tomando o lugar do actual Fiat Bravo como representante do segmento C.

E se teremos um mini Freemont no segmento C, no segmento acima, o Freemont será, obviamente, o terceiro elemento da família Panda. O actual Freemont, um clone do Dodge Journey, acabou por se tornar um inesperado (e relativo) sucesso, dado a relutância do mercado em aceitar modelos Fiat de grandes dimensões. Não só é o clone da Fiat-Chrysler mais vendido na Europa (em 2012 vendeu acima de 25 mil unidades), sozinho ultrapassando as vendas combinadas do Lancia Thema e Voyager, e ainda superou outros modelos do grupo, como o Lancia Delta, Fiat Bravo e o Alfa Romeo MiTo. Construído actualmente pela Chrysler no México, é de esperar num próximo facelift, ou no sucessor esperado para 2016, novos traços que o integrem melhor como membro da família Panda.

Fiat-Freemont_AWD_2012_01

Mudando para o pilar 500, também iniciamos com o original. O ano 2015 verá o simpático e icónico Fiat 500 substituído. Passará a ser produzido exclusivamente na fábrica polaca de Tychy (actualmente também é produzido no México, abastecendo as Américas), e, previsivelmente, não deveremos assistir a grandes mudanças visuais. Será mais um ajuste “aqui e ali”, mantendo os contornos icónicos e apelo retro do actual, sendo no interior que teremos mudanças mais significativas. Novo desenho, melhores materiais, sistema U-Connect da Chrysler e novos equipamentos de assistência à condução como o City-Brake já visto no Panda, deverão marcar presença. Poderá crescer ligeiramente, melhor adaptando-se ao papel de modelo global.

Fiat500c_2012

Subindo um segmento, encontramos aqui a maior surpresa. Um Fiat 500 de 5 portas e 5 lugares para o segmento B, substituindo o popular e veterano Fiat Punto por um modelo com aspirações premium, consequentemente, a esperar-se preços acima do Punto. Ainda sem certezas sobre qual a plataforma que recorrerá, a candidata mais provável deverá ser variante curta da plataforma do 500L, pelo que o futuro segmento B da marca deverá manter dimensões semelhantes ao actual Punto. Ou seja, seria naturalmente um Fiat… 600. Estima-se que tal modelo apareça apenas em 2016. Ainda existem algumas reservas relativamente ao sucessor do Punto, pois a possibilidade de o encaixar na família Panda ainda é plausível, o que faria dele um crossover rival do Renault Captur, Nissan Juke ou Opel Mokka, mas arriscar-se-ia conflito com o futuro 500X.

Mudando de tipologia, já podemos encontrar no mercado actualmente os MPV 500L, 500L Living e 500L Trekking. Tendo substituido o Fiat Idea e Fiat Multipla, parece, para já, ser aposta ganha, com a gama 500L a ser lider europeia no segmento dos pequenos MPV, apesar da dependência excessiva do mercado italiano para atingir esse feito. Nos EUA, o cenário já não é tão risonho. Roubou vendas ao mais pequeno 500 e também não contribuiu para o crescimento expectável da Fiat nos EUA este ano. Apesar da tendência crescente do mercado, as vendas da marca Fiat estão a descer.

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Por fim, mas não menos importante, o 500X. Desenvolvido em paralelo com o futuro SUV compacto da Jeep, o 500X substituirá o Fiat Sedici, fruto da parceria com Suzuki, e construído por esta juntamente com o SX4, recentemente substituído. O objectivo é claro, rivalizar no crescente segmento dos SUV compactos, apostando na boa e forte imagem do 500. Oferecerá tracção às duas e quatro rodas, sendo ambos, 500X e Jeep, baseados na plataforma Small US Wide, a mesma que equipa o 500L. Serão produzidos na fábrica da Fiat em Melfi. O primeiro a chegar à linha de produção deverá ser o Jeep, a meio do próximo ano, com o 500X a iniciar a sua produção poucos meses depois. Segundo fornecedores, estima-se produção anual de 150 mil unidades para o Jeep e 130 mil unidades para o Fiat 500X.

Em jeito de conclusão, e caso não haja mais mudanças drásticas de planos por parte do Sr. Sergio Marchionne na sua próxima exposição sobre a estratégia futura para a Fiat em Abril de 2014, veremos uma Fiat profundamente reinventada até 2016, não só com a sua gama apoiada em duas, direi, sub-marcas, como parecem ser o Panda e o 500, como uma gama assente na sua generalidade em crossovers e SUV, seguindo as tendências do mercado, que parece cada vez mais preferir estas tipologias às tradicionais.

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