Porsche 911 GT3 (991): Um «concentrado de adrenalina» apresentado em Genebra

Apresentado em Genebra há quatro dias atrás, o Porsche 911 GT3 está volta à ribalta: mais potente, mais leve e mais rápido. Mas a que preço?

Ainda não tinha entrado no voo da EasyJet em direcção a Genebra e a minha cabeça já estava nas nuvens. O culpado? O novo Porsche 911 GT3, geração 991. Tudo porque sabia que dentro de poucas horas ia ter encontro com ele.  Mais um…

Não era bem um «encontro às cegas», como foi com o Ferrari LaFerrari. Foi mais como revisitar um velho amigo. Sabemos como ele é, que aspeto tem e até conseguimos reconhecê-lo no meio daquela enorme multidão. Mas depois de alguns anos «sem nos falarmos», debaixo daquele aspeto característico já com 50 anos, como estaria ele? Será que casou e teve filhos? Ah… esperem! Estamos a falar de um carro. Mas já perceberam onde quero chegar certo?

Porsche GT3

Estava um tanto ou quanto ansioso. Queria saber o que é que a Porsche tinha idealizado para a nova versão de um dos mais brilhantes, divertidos e excitantes «driver’s car» dos últimos anos. Será que a velha receita «novecentos-e-onze» com uma dose extra de dedicação às pistas e menos uns pozinhos de dedicação estradista, ia cumprir a tradição? Para muitos «o» 911!

Assim que caiu o pano, a minha primeira impressão foi aquela que estava à espera – Estás igual a ti mesmo, ninguém te dá 50 anos rapaz! Ok… nota-se que fizeste algum ginásio, e as suas tuas linhas estão mais apuradas. Mas aparentemente és o mesmo de sempre – Pensei eu enquanto descobria os novos pormenores deste velho conhecido. Enquanto a minha imaginação fazia companhia os meus olhos numa viagem em torno do novo Porsche 911 GT3, veio ter comigo o Jürgen Piech, um dos anfitriões do expositor da Porsche em Genebra. Finalmente falava com alguém de «carne e osso».

Porsche GT3 3

Para alemão era um tipo muito afável, conhecia Portugal e já tinha dado umas voltas no Autódromo de Portimão. Teimava em gabar-se que sabia dizer umas quantas palavras em Português. Deixei-o mostrar as suas habilidades na língua de Camões e foi… um desastre. Mas com um olhar franzido lá consegui soltar um tímido e pouco convincente “very well Jürgen!”.

Na mão trazia um folheto com as especificações do Porsche 911 GT3 e com a excitação que é possível ao bávaros, Jürgen foi-me introduzindo ao GT3. Que estava mais leve, mais potente, mais rápido etc. Mas enquanto dávamos uma volta guiada em torno do GT3 – sempre com a máquina fotográfica em riste – os meus olhos batem naquilo que não estava à espera: – Jürgen, is that a PDK gearbox? – Ao que ele respondeu, da mesma maneira que eu gabei o seu português: – Yes Guilherme, it is… but is faster than a manual!

O embaraço de me estar a apresentar um dos desportivos mais puros que o dinheiro pode comprar com uma caixa de dupla embraiagem estava patente na sua cara. Mas não é assim tão grave… – Jürgen, está disponível como opção uma caixa manual certo? Não queiram saber a resposta…

Porsche GT3

Chegamos ao motor e outro balde de água fria. O viril, rotativo, vitorioso e indestrutível motor Metzger que equipava exclusivamente as versões GT3 e GT2 do Porsche 911 (desde 1998) não está mais presente nesta geração. Para aqueles que não o conhecem, este motor Metzger foi o motor que deu à Porsche a sua última vitória nas 24h de Le Mans. Para além de ser reconhecido pela sua avidez por rotação, era também reconhecido pela sua fiabilidade. Em testes este motor foi capaz de percorrer o equivalente a 10 viagens Lisboa-Porto sempre a fundo, a mais de 9000 rotações p/minuto, sem perdas de potência ou desgaste prematuro.

Nesta geração, o Porsche 911 GT3 passou a montar  um motor semelhante àquele que é usado pela restante gama.  Mais convencional portanto. Isto claro, se é que se pode chamar convencional a um motor atmosférico de 3.800cc capaz de desenvolver 475cv de potência, um binário máximo de 435Nm e atingir as 9000rpm! Aceleração dos 0-100km/h em 3.5 segundos antes de atingir a velocidade máxima de 315 km/h. Apesar de tudo, acho que vamos conseguir viver com este motor não acham?

Porsche GT3 4

No restante conjunto, não houve mais surpresas. Travões maiores em liga de carbono, suspensões mais aptas para andamentos vivos, chassi com afinação especifica e uma multiplicidade de apêndices aerodinâmicos capazes de gerar mais downforce. Nada que não estivéssemos à espera de uma versão GT3.

Mas coloquemos as coisas em perspectiva. Se aparentemente este GT3 apresenta-se como o menos GT3 de todos os tempos, a verdade é que é mais GT3 do que qualquer um dos seus antecessores. Acontece que eu sou um aficionado da Porsche e como tal, tenho alguma aversão à mudança. Se no papel as coisas não parecem famosas coloquemos os dados na pista. A Porsche avança que este 911 GT3 é capaz de completar uma volta a Nürburgring em menos de 7  minutos 30 segundos.

Moral da história? Calma, calma… a Porsche sabe o que faz. Vamos aguardar, tirem o 911 GT3 dos holofotes do Salão de Genebra e marquemos novo encontro, desta vez no traçado do Estoril. E mais uma vez, não faltaremos. É sempre bom ver velhos amigos, porque o tempo passa mas há coisas que nunca mudam,

Texto: Guilherme Ferreira da Costa

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