Shooting Breaks – O que são, quem as vende e porquê.

A moda das Shooting Breaks, as carrinhas coupé, parece que veio para ficar. São a aposta das marcas premium na oferta de um carro bipolar e esquizofrénico – tanto é coupé, como é carrinha, mas não é carrinha, nem é coupé e vive momentos de loucura quando se quer atravessar nas curvas. Confusos?

A primeira “Shooting Break”
As “Shooting Breaks” surgiram quando muitos dos vossos pais e avôs ainda ouviam e dançavam as músicas no “salão”, até ao dia em que conheciam as nossas mães ou avós num pézinho de dança e enfim, se encaminhava tudo para ser possível estarmos aqui hoje.

O conceito “Shooting Break” assumiu várias formas, mas o objectivo era sempre o mesmo – cruzar um pai elegante com uma mãe gorda a dar à luz uma jovem de cara bonita, apesar do traseiro grande. A história remete-nos para a década de 60, quando as carrinhas coupé eram um capricho dos mais abastados. Existiam carroçadores especializados que transformavam o mais exclusivo dos desportivos, numa carrinha ainda mais exclusiva. Os domingos queriam-se passados em família e a bordo de um potente carro, que também conseguia levar o cão na mala. O DB5 Vantage Shooting Break foi fruto desta ambição – ser o James Bond e pai de família ao mesmo tempo.Da extravangância à produção em série
Entretanto estamos no Século XXI e nos dias que correm, existe uma crescente vontade de voltar ao passado, refinando-o, e tornar o que noutros tempos era uma exclusividade, num produto acessível, não a todos, mas a mais alguns. As “Shooting Breaks” não passam de uma aposta num mercado que existia apenas para os exuberantes e milionários, que hoje é colocado à disposição dos que apenas procuram mais estilo, numa sociedade onde o este já não é considerado loucura inacessível.É um facto que durante alguns anos surgiram vários modelos “Shooting Break”, mas o conceito não se conseguiu impor. A culpa foi talvez das marcas que começaram a produzir estes modelos – Mini na versão Clubman e mesmo os suecos da Volvo com o P1800 ES – que não conseguiram criar modelos suficientemente apelativos ao ponto de se tornarem referência. Foi preciso esperar para ver o que faziam os alemães relativamente a este segmento e a verdade é que tornaram tudo mais interessante.As “Shooting Breaks” evoluíram bastante e o conceito foi alterado. Agora as marcas apresentam propostas de 5 portas, ao contrário do conceito original que nos leva para modelos de 3 portas. A Mini inovou ligeiramente com o novo Clubman, ao introduzir uma mini-porta-suicida do lado esquerdo do carro, para facilitar o acesso aos bancos traseiros e evitar o transtorno de levantar os bancos dianteiros sempre que alguém quer entrar para trás. Estes modelos nunca foram sinónimo de acessibilidade ou praticabilidade – o lugar do meio é praticamente inexistente e coitado do que lá se sentar – o objectivo destas carrinhas é mesmo ter estilo.O que há hoje no mercado e o que aí vem
As marcas premium começam a querer reinventar o passado. As carrinhas coupé que agora surgem continuam a fazer jus à falta de acessibilidade, e quando comparadas com as carrinhas tradicionais, até perdem muito em espaço interior, para favorecer a exclusividade e o design. Podemos criticar? Podemos! Mas também o fizeram quando a BMW lançou o X6 e introduziu o conceito SAC (Sports Activity Coupé). O resultado foi um volume de vendas acima do esperado e um produto que é desejado pela sua exclusividade e porte que dá (bastante) nas vistas.

Mercedes CLS Shooting Break
Quem deu o pontapé de saída foi a Mercedes – por mais 2.750€ que o CLS de 4 portas, já é possível comprar a super elegante CLS Shooting Break. O preço a pagar pela nova carrinha/coupé/tentativa de desportivo em algumas curvas é de 74.250€. Claro que para a tornar minimamente apelativa ao olhar, como a que vemos na foto, e se quiserem colocar alguns extras para colmatar, por exemplo, a fraca visibilidade traseira – caso da câmara traseira de marcha-atrás – o preço final rondará os 92 mil euros.Porsche Panamera Sport Turismo
Já aqui publicamos um artigo sobre o protótipo apresentado pelos patrões de Estugarda no Salão de Paris. Não é uma verdadeira Shooting Break, nem segue o conceito verdadeiramente coupé, apesar de estar bem lá perto. Esta incursão da Porsche no mercado das carrinhas vem mexer ainda mais com o sistema nervoso dos puristas amantes da marca, agora completamente rendidos – depois do SUV, o carro e agora a carrinha. Quem sabe amanhã um utilitário?

A Aston Martin não precisou de tantos lançamentos – foi diretamente dos desportivos mais potentes, para um IQ com nome de robô emproado (Cygnet), tudo é possível. O preço desta carrinha ficará sempre acima dos 100 mil euros e é certo que será um Panamera com um rabo grande.
BMW Série 6 Gran Touring
A BMW não quis perder o barco para este novo segmento premium e depois de transformar um desportivo de 2 portas, num familiar/desportivo de 4 portas, ainda arranjou lugar para mais uma porta. Há que fazer “render o peixe” e a BMW, apesar de mais tarde, ainda vem a tempo de introduzir um produto no mercado de luxo das carrinhas coupé.

Com chegada prevista para 2014, não será mais espaçosa que a Série 5 Touring e a haver uma versão M a gasolina, quem a receberá será muito provavelmente a Série 6. A motorização de topo da Série 5 Touring poderá bem ficar “apenas” pelo 550d. Os preço a pagar por uma porta a mais no Série 6 (de 4 portas) ascenderá aos 100 mil euros, colocando-se mais perto da Panamera Sport Turismo do que da CLS Shooting Break.Veredicto final: Doença ou Evolução?
Não é fácil criticar o que todos veneram e dão como certo. Por exemplo – os elogios à CLS Shooting Break e principalmente à sua beleza afastam qualquer opinião contrária. É quase como se todos fossemos marinheiros perdidos na imensidão do mar seduzidos por sereias. A verdade é que temos motivos para ficar deslumbrados – as Shooting Breaks são de facto muito elegantes. Mas, valerá a pena pagar mais por algo que é mais acanhado, tem menos espaço na bagageira e não é propriamente líder em prestações? Até podem responder: “a versão AMG da Shooting Break é uma besta!” o que é bem verdade. Mas o CLS 63 AMG também o é…Então porquê criar uma carrinha que não é uma carrinha? Fui investigar.Depois de muitos contatos com pais de família da classe média-alta, que contribuíram de forma ativa para este artigo e de largas horas a observar almoços, jantares e viagens de famílias com dois filhos, concluí o porquê do possível sucesso deste mercado emergente…Sabem a diferença principal de uma Touring normal para estas “Shooting Break” modernas? Quem vai ao volante até pode levar os dois filhos atrás, mas com aquele “lugar” do meio a sogra vai querer ficar em casa.

Texto: Diogo Teixeira

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