A emancipação do automóvel está próxima!

Mais de cem anos após a sua massificação, a emancipação do automóvel está próxima. E isso não são boas notícias para os amantes da condução.

Aproveitando alguns raios de sol muito tímidos, a equipa do Razão Automóvel reuniu-se numa esplanada para falar de outra coisa que não automóveis – já não estávamos a aguentar a clausura de 14h seguidas na nossa redação a dissertar sobre as «quatro rodas». E como é tradição dentro de qualquer grupo de colegas de trabalho/amigos, toda a ação desenrolou-se ao sabor daquela bebida que é servida bem fresca e é extraída da cevada. Bebida da qual não recordo o nome nem a marca, desculpem…

Bebida vai, bebida vem e não tardou que a filosofia começasse tomar conta dos acontecimentos dentro da minha mente. “Ponto de ordem à mesa! O Guilherme vai apresentar uma moção”, disse o Tiago Luís.

Rapaziada, os automóveis são como nós – disse eu. As gargalhadas sucediam-se a mais de 8.000 rpm, mas fui prontamente interrompido: Então vamos voltar a falar de automóveis? A sério?! Já chega… – Disse o Diogo com um sorriso de desespero.

Obviamente, eu percebi a mensagem… não estavam reunidas as condições para eu dissertar sobre a «coisa». Mas fui para casa a pensar naquilo que não disse. E aquilo que não disse é que o crescimento da indústria automóvel se assemelha ao nosso crescimento, seres humanos. Não acreditam? Então leiam…

Fase Bebé

Tal como os bebés humanos, os primeiros automóveis eram inúteis. Faziam pouco mais do que avariar, dar trabalho, despesas e dores de cabeça. Exactamente como os bebés. A utilidade imediata do dois? Nenhuma. Mas em comum ambos tiveram a sorte da humanidade continuar a apostar neles porque tinham/têm a esperança de que um dia o cenário ia/vai mudar. Os bebés crescem e tornam-se homens e os carros cresceram e tornaram-se úteis, como vamos ver no próximo capítulo.

Ainda bem que não desistimos à primeira contrariedade…

Fase infância

Depois da fase natal vem a infância e tal como nos seres humanos, nos carros esta fase manifestou-se da mesma forma. Por volta de 1910 já podíamos sair de casa de carro e ter (quase…) a certeza de chegávamos a cavalo nele e não em cima de um cavalo…. O equivalente em termos humanos, a mandar uma criança comprar manteiga à mercearia e ela trazer… manteiga. Não gomas ou rebuçados…

De todo o modo, nesta fase tal como as crianças também os carros ainda não faziam exactamente o que nós queríamos nem da forma que queríamos. Faziam «birras» por tudo e por nada, e a solução só chegava à martelada (no caso das crianças dispensa-se este utensílio). Os comandos de direcção eram rudimentares, os travões inexistentes e os restantes controlos tinham a complexidade de uma aeronave.

Fase adolescência

Superada a infância, chega a idade mais interessante… A irreverente «idade do armário». Ou no caso dos automóveis a «idade da garagem», também conhecida por adolescência. Podemos situar esta fase lá para o início da década de 60 com final na década de 90.

Os carros neste período de vida começaram a ser verdadeiramente «conduzíveis». As potências começaram a subir, e dão-se as primeiras grandes descobertas. Afinal de contas estamos na adolescência, não é verdade? E isso reflete-se ao volante. Alguns carros são «irresponsavelmente» potentes, autênticos loucos por fortes atravessadelas e travagens queimadas. Não interessa se o «corpo» acompanha o ímpeto da «alma»… é preciso é emoções fortes! Sem filtros…

A segurança, esse parente pobre da indústria automóvel durante tantos anos, era algo praticamente acessório.

Fase Adulta

Chegamos então à fase adulta e sem mais nem menos, chegam também responsabilidades. Uma vez mais tal como nos humanos, também nos carros as responsabilidades pesam…

Aquele escape directo sem catalizador, equivalente ao piercing na língua? Esqueçam! Tem de dar lugar a um escape menos audível, porque agora somos responsáveis e estamos verdadeiramente preocupados com o ciclo reprodutor das cigarras e dos grilos (que como sabem dependem da inexistência de poluição sonora). Tinha uns vizinhos que deviam ser parentes afastados desses insectos…

Os litros e litros de cerveja?! Perdão, de gasolina. Esses também têm os dias contados. A palavra de ordem é poupança e preocupação com a sustentabilidade do dia de amanhã. Os motores grandes começam a dar espaço aos pequenos turbinados.

A diversão também deixa de ser o tópico nº1. A electrónica invade o nosso automóvel, tal como as nossas noitadas são invadidas pela companhia da televisão. As atravessadelas passam a pequenos deslizes, e as travagens queimadas são substituídas pelo soluçar de um sistema de ABS teimoso.

E é aqui que se dá a «parcial» emancipação do automóvel. Ele deixa de fazer aquilo que nós queremos para passar a fazer apenas aquilo que quer. São controlos de tracção, de viragem, de travagem e de sei lá mais o quê.

Podemos dizer que a fase adulta do automóvel aqui descrita corresponde aos tempos actuais. Como disse anteriormente, algures aqui na Razão Automóvel “hoje até um aleijado de olhos vendados e sob a influência de drogas leves consegue fazer tempos decentes em pista”. Tal não é o grau de «parentalidade» dos automóveis de hoje.

O que é que se segue? 

Até aqui homem e máquina comportaram-se da mesma forma. Foram bebés, crianças, adolescentes e adultos. Felizmente para os automóveis é aqui que se separam as águas. Os automóveis nunca vão ser velhos ao contrário de nós.

Então para onde vai a nossa amada máquina? O caminho creio eu é o da «desumanização» do automóvel. Mais cedo do que tarde a borracha queimada numa estrada de montanha vai dar lugar a um computador que conduzirá por nós. Em plena segurança mas sem apelo nenhum. O objecto que tanto amávamos caminha no sentido de tornar-se num «electrodoméstico». Cada vez mais eléctrico, limpo e seguro.

O automóvel vai emancipar-se e tornar-se completamente independente. O ser humano vai deixar de ser «guia» para passar a ser «guiado». Os sistemas que agora apenas nos corrigem, no futuro vão mesmo nos substituir. Se isso é uma coisa má? Talvez não.

Muitas vidas serão poupadas nas estradas. E no final de contas vamos poder sempre contar com os putos irreverentes dos anos 90 e 80 (e porque não 2000?), que hão de ter sempre lugar cativo nas nossas garagens. E já agora, uma visão: sonho que no futuro os autódromos e estradas privadas deste país vão transformar-se numa espécie de reserva protegida de automobilistas, onde as velhas glórias vão sempre poder «esticar as pernas». E nós também… Afinal de contas, os automóveis não envelhecem não é verdade? E quanto a nós não há volta a dar… vamos ser sempre uns apaixonados do volante. Quais adolescentes!

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