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Mitsubishi Lancer Evolution. O carro que virou religião.

Não era preciso ser grande fã do desporto automóvel para reconhecer o lendário carro vermelho e branco da Mitsubishi...

Em Fátima, Santarém

Pilotado por Tommi Mäkinen, esta máquina acompanhou os sonhos de muitos adolescentes, que como eu, sonhavam um dia poder fazer o maior salto possível numa etapa nocturna de rali apenas iluminados pelos flashes das câmaras… era a pura da loucura.

No passado dia 8 de setembro, a Razão Automóvel esteve em Fátima para fazer a cobertura do 1º Trackday do Kartódromo de Fátima promovido pelo Automóvel Clube de Ourém.

Chegados a Fátima depois de um pequeno problema durante a viagem que obrigou o meu Alfa Romeo a voltar de reboque para casa, o entusiasmo estava abalado mas conforme os carros iam chegando ao parque do Kartódromo, o “bichinho” voltava a despertar.

Durante a minha adolescência as discussões na escola dividiam os que se babavam com o azul e amarelo da Subaru (ainda hoje guardo religiosamente um boné oficial da marca), e aqueles que defendiam o possante Lancer e ainda os impressionados pelos compactos 206 WRC e Corolla, este último, da mítica Toyota Castrol Team.

Um dos carros inscritos, um Mitsubishi Lancer Evolution VIII vermelho com jantes pretas e uma inconfundível asa traseira gigante prometia dar espectáculo. O 2.0 Turbo com 265 cv de potência e tracção integral, apesar dos seus quase 1500 kg, cumpre o tradicional sprint dos 0-100 km/h em apenas 4.8 segundos.

Este produziu força G suficiente ao longo do traçado do Funpark para deslocar o estômago do Guilherme Costa, para as costas – sim, ele também teve a oportunidade de andar no lugar do “pendura” do nipónico.

Rapidamente chegaria a minha vez, e foi com o céu praticamente já sem a luz do sol que entramos na pista. É verdade que os amantes do EVO dizem que este é o pior de todos e que a originalidade não é o seu forte, apesar de existir uma “Evolução” em relação ao VII, esteticamente, admito que esta seja quase nula.

O escape de rendimento posteriormente instalado neste Mitsubishi, provavelmente acompanhado de umas “magias”, tornaram o barulho do turbo ensurdecedor e violento, provocando um valente coice de cada vez que se pisa o acelerador – muito desaconselhável para quem padece de dores de costas. Acelerações capazes de deixar muitos desportivos corados e uma velocidade em curva impressionante para um sedan, são o “prato do dia”.

Não me posso queixar: para além de ser a primeira vez dentro de um EVO VIII estou num circuito muito técnico, que não vai certamente dar abébias a este japonês. Meu dito, meu feito, foram 4 voltas a fundo que deram bem para ter uma ideia das capacidades deste bólide. Não foi o sonho de criança ao vivo e a cores, mas foi quase… A única vez que dei umas voltas em “modo nocturno” com meia dúzia de flashes na curva a seguir à recta da meta foi na playstation, esta experiência serviu e bem para abrir o apetite pela procura de mais situações como esta.

O Mitsubishi Lancer é um familiar racing. Um carro que leva 4 pessoas a bordo de uma viagem alucinante de curvas contra curvas sem se queixar de falta de fôlego ou fadiga nos travões. A eficácia, vai buscá-la ao chassis e à tração que nunca se esgota numa sintonia perfeita entre o carro e a estrada que tem pela frente – atira-se sem medo para as curvas, como um cão para uma poça de lama.

O exterior conserva a imagem de um tempo diferente, consegue manter um aspecto muito fiel ao original, evoluindo naturalmente sem extremos ou loucuras de design. As entradas de ar frontais, frente agressiva e um spoiler na traseira capaz de acomodar a maior das enciclopédias passam a imagem correcta: este é um carro feito para andar depressa.

O interior resume-se facilmente: simples, pouco divertido e sem nada que possa contribuir para distrair o condutor, o relógio digital no centro do tablier é provavelmente o elemento mais intuitivo que irão encontrar. O condutor sabe que no seu campo de visão é rei o conta rotações que se encontra bem ao centro do painel de instrumentos, pois o indicador da velocidade é coisa que pouco importa. Os gadgets da época passaram-lhe ao lado e os passageiros, quando andarem em “modo passeio”, vão deprimir com tanto plástico para ver, mas compreende-se bem o porquê: se o que querias era divertimento compravas um kit de home cinema. Ali, é condutor e máquina, o resto só se diverte se o primeiro for capaz de entreter.

A minha paixão automóvel foi-se educando e desenvolvendo a acreditar no sentimento e espírito das máquinas: “Os Ferraris têm alma, como os Alfas. São carros diferentes…” Durante muito tempo acreditei que os carros japoneses eram carros técnicos, automóveis que, sem paixão, tinham sido feitos apenas para rasgar as curvas em drift, fazer uma trajectória perfeita e receber aplausos sincronizados de uma multidão robótica.

A verdade é que apesar de isto tudo, no fim acaba por encher o coração de um miúdo que se apaixona pelos ralis mais exigentes. A Mitsubishi criou um carro que virou religião e eu, sou um fiel seguidor.

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