Especial Ford Cortina – 50 anos a vencer

Os anos 60 ainda marcam bastante a sociedade em que vivemos e representam também muito daquilo que somos hoje. Fizemos uma viagem no tempo para uma época marcada por momentos que serão recordados para sempre, sendo um deles o nascimento do Ford Cortina.

Na década de 60 o mundo viveu, construiu, descobriu, destruiu, revoltou-se, foi sobrevivendo e ao som dos Beatles e dos Rolling Stones criou gerações. O Flower Power e o feminismo estavam na ordem do dia. “Não à violência” e estar sentado nos jardins a cantar e tocar guitarra era o espírito.

John F. Kennedy ganhava as eleições e tinha pela frente o erguer do muro de Berlim, a escalada vertiginosa da guerra do Vietname e o seu próprio assassinato em Dallas no ano de 1963. Martin Luther King Jr. marchava pelos direitos civis do negros e via, mais tarde, o seu percurso acabar em 1968 num dia que o tornou um mártir. Em 1969, Neil Armstrong chegaria à lua – eraum pequeno passo para o homem, mas um gigantesco salto para a humanidade. Ou seja, enquanto uma parte do globo combatia no terreno e nos bastidores jogava um xadrez político frio, perigoso e intenso, a outra caminhava ao som de “I want to hold your hand” (Beatles) numa ode ao amor e à paz.

Os farolins traseiros fazem lembrar o símbolo da paz invertido

Em 1960, a Ford viu-se perante dois caminhos: No primeiro, comprariam um disco dos Beatles, tintas alegres, toda a droga revolucionária da época que começava a surgir, distribuiriam-na por todos os funcionários e depois anunciavam: “vamos fazer frente à British Motor Corporation e construir um mini-carro melhor do que o Mini”.

O segundo caminho era mais seguro, mas, apesar de envolver o assumir de uma incapacidade e o partir para uma capacidade, foi o que aconteceu. “Se não os podes vencer, parte para uma guerra diferente“, pode bem ter sido uma das frases proferidas na sede da Ford. Não se fiaram apenas no “amor para vencer”, nem esperaram pela chegada das drogas mais psicadélicas.

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Com os canhões apontados ao Morris Oxford e ao Vauxhall Victor, a Ford decidiu entrar no mercado dos familiares e construiu um modelo que acompanhou gerações: o Ford Cortina! O nome, a Ford foi buscá-lo a Cortina d’ Ampezzo, estância de esqui italiana palco dos Jogos Olímpicos de Inverno de 1956 e das cenas mais arriscadas de “For Your Eyes Only”, um dos filmes do famoso agente 007 interpretado por Roger Moore.

 

For Your Eyes Only – Filmado em Cortina

Para fazer jus ao nome que lhe fora atribuído, a marca decidiu promover o carro na estância de Cortina. Numa tentativa de provar a sua versatilidade este desceu, com quatro passageiros a bordo, a pista de bobsled da estância, dando ao origem ao Auto-Bobbing. No fundo, o que qualquer britânico desejava: “Querida, agora que temos o Cortina aos fins-de-semana fazemos bobsled com os miúdos!
O primeiro Cortina (Mk1) representava o típico produto da classe média: bom preço, boas prestações, algum estatuto e claro, “o vizinho também comprou um”. Na altura desenvolvia-se aquela a que se viria a chamar: a classe Cortina. 

Durante vinte anos a Ford produziu aquele que foi um dos seus maiores sucessos de vendas: o Cortina vendeu mais de um milhão de cada uma das suas diferentes evoluções (MarkII, III, IV e V) à excepção da primeira (MarkI) que “apenas” ultrapassou a marca das 820,000 unidades vendidas. Tudo isto, até ao ano em que deu lugar ao Sierra. Na verdade, não será demais dizer que o Cortina é um dos responsáveis, ao lado Escort (1968), pela recuperação do estatuto de líder de mercado no Reino Unido atribuído à Ford.Podemos encontrar montados debaixo do capot do Cortina motores que começam no pequeno 1.2 até ao possante seis em linha de 4100 cc, passando por um poderoso 3.0 V6.

As configurações variavam e umas apenas estavam disponíveis em determinados mercados – por exemplo, o 3.0 V6 foi comercializado na África do Sul e apresentado num modelo quase idêntico ao Cortina, uma variante chamada Cortina Perana destinada a este mercado, mais tarde, comercializada com o nome Cortina Savage no Reino Unido.O interesse pelo modelo era tão grande que rapidamente a Lotus apareceu em cena, disposta a criar uma das versões mais cobiçadas deste carro: o Lotus Cortina.

A primeira versão (Mk1) surge em 1963, com um motor de 1558 cc e a caixa do Lotus Elan. Era o momento alto do Cortina: a Lotus juntava-se à Ford para uma viagem alucinante a bordo de um desportivo branco com uma faixa verde flash que atravessava o carro. O Lotus Cortina, ou Cortina-Lotus como a Ford gostava de lhe chamar, era um parque de diversões para todos os sentidos que não era ilegal e um vencedor na famosa Trans-am Series.

Lotus-Cortina Mk1

O Cortina provou ser um modelo “camaleão”: um carro que fez de bobsled, venceu as corridas mais prestigiadas da época para a sua classe, foi estrela em filmes e series de televisão no Reino Unido e acaba hoje a ser utilizado nas “Demolition Derbys”, competições nas quais, basicamente vence “o último homem a ficar de pé”, neste caso, o “último carro operacional”.

Um destino fatal, mas dizem os entusiastas destas competições, que o Cortina é um osso duro de roer. Um carro que 30 anos depois de deixar de se produzir continua a ser uma celebridade, no fundo, um senhor!

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Texto: Diogo Teixeira

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