Automobili Turismo e Sport (ATS) – Passado e Futuro?

Se nunca ouviram falaram da ATS (Automobili Turismo e Sport) não se preocupem, o contrário seria uma raridade.

Esta história começa antes de ser criada a ATS. Voltamos para o dia em que Enzo Ferrari sofreu as consequências por ter mau feitio: o dia em que perdeu uma parte importante da sua equipa. Enzo, que dispensa apresentações, tinha uma personalidade muito forte. Esse carácter levou a Ferrari a um patamar inatingível, o sonho de qualquer marca de automóveis. No entanto, foi traído pela sua postura feroz e agressiva e depois de muitos avisos de quem o rodeava, levou a sua equipa ao limite.

Em 1961, na chamada “Revolta no Palácio”, Carlo Chiti e Giotto Bizzarrini, entre outros, saíram da companhia e fecharam as portas a Enzo. Muitos pensaram que seria o fim da Ferrari, que acabava de perder o seu Engenheiro Chefe e o responsável pelo desenvolvimento de carros de competição, juntamente com toda a Scuderia Serenissima. Estes foram “apenas” os responsáveis pelo desenvolvimento do Ferrari 250 GTO, e a ATS surge antes de esta equipa formar a Autodelta e desenhar o V12 da Lamborghini… coisa pouca.

Acabada de sair da Ferrari, esta fornada de mentes brilhantes do automobilismo juntou-se para criar a Automobili Turismo e Sport SpA (ATS). O objectivo era claro: fazer frente à Ferrari na estrada e dentro do circuito. Parecia fácil, não perderam tempo e atacaram o trabalho convencidos de que iriam brilhar. Resultado? A ATS foi fundada em 1963 e durou…dois anos.

Construir automóveis é já por si só bastante complicado, não só pela parte técnica e tecnológica que se exige, mas também pela capacidade industrial que os financiamentos garantem. Fazer frente à Ferrari e apontar o mesmo nível como mínimo a atingir, era e foi ousado. Talvez por génio a mais, ou a menos, o muito que percebiam de automóveis não estava equilibrado com o pouco ou nada que percebiam de gestão. A ATS fechava as portas em 1965 e para trás ficava um modelo mítico, de uma beleza extraordinária e cheio de boas intenções – o ATS 2500 GT.

À volta deste projecto uniram-se personalidades de luxo, todos prontos para fazer frente à Ferrari nesta cruzada. Sem referir novamente a já mencionada equipa de de ex-colaboradores Ferrari, por detrás do financiamento estavam três industriais, sendo um deles o fundador da Scuderia Serenissima – o Conde Giovanni Volpi, herdeiro de uma enorme fortuna que o seu pai, uma figura importante de Veneza, lhe deixara. No desenho do chassis, nada mais nada menos que o ex-Bertone Franco Scaglione, encarregue de dar à luz um dois lugares de sonho.

 

O objectivo de construir um carro que fosse campeão na estrada era nobre sem deixar de ser sonhador. O ATS 2500 GT foi apresentado no Salão de Genebra em 1963, debitava 245 cv extraídos de um 2.5 V8 e atingia 257 km/h. Estes números, impressionantes para a época, tornaram-se ainda mais quando a marca anunciou que este seria o primeiro carro italiano com motor central.

As dificuldades financeiras assombravam todos os dias a fábrica da ATS e foi a muito custo que 12 exemplares saíram das instalações, apesar de apenas 8 terem sido verdadeiramente acabados. O 2500 GT era um carro à frente do seu tempo, inovador, um candidato a super carro.

Enquanto o 2500 GT corria o mundo à procura de compradores, a marca decidia entrar na Fórmula 1. O modelo era o Tipo 100 e nele estava montado um 1.5 V8 – o chassis não passava de uma cópia do já ultrapassado Ferrari 156. Ao volante colocaram o campeão de 1961, Phil Hill, e o colega de equipa, Giancarlo Baghetti. No fundo era um carro com um novo motor, um chassis de um Ferrari que a própria Ferrari já não queria, conduzido por um ex-campeão – parecia uma equipa de terceiro mundo desorganizada e apoiada num investidor milionário que pouco ou nada percebia de corridas, só queria era gastar dinheiro.

Olhar para trás e avaliar é mais fácil, mas permite-nos perceber que se a marca já tinha dificuldades, com a entrada na F1 – que só trouxe desistências e nenhuma vitória – esta ficou completamente descapitalizada. A passagem ruinosa pela F1 deitou por terra a possibilidade de concretizar qualquer projeto e assumir encargos financeiros – a ATS só tinha um destino: a falência.

Hoje surge uma luz ao fundo do túnel para a pequena construtora italiana com o aparecimento de imagens do que se diz ser o futuro 2500 GT. Podemos ver um modelo que promete seguir as linhas orientadoras do antecessor – simples, inovador e cheio de estilo. Quanto a “pormenores”, bom… à primeira vista são preocupantes: as ópticas não são nada estranhas…ah! exacto, são iguais à do Ferrari California. Ainda nas luzes, passamos para a traseira para ver se…exacto! E lá está mais um conjunto de ópticas bem familiares para reviver um pouco do que a Ferrari nos tem oferecido ao longo dos tempos…

Agora que penso nisto interrogo-me: será uma piada de mau gosto?

Um olhar de relance pelas características técnicas fez-me parar em duas: sprint dos 0-100 km/h e transmissão. A primeira agrada – pelo menos à vista – são 3,3 segundos. A segunda é um misto de desconfiança, emoção e desconfiança novamente: “manual de seis velocidades”.

Ora, eu sei que o verdadeiro purista gosta da ideia de conduzir um V8 com mais de 500 cv nas rodas traseiras de forma completamente manual. Confesso que também me agrada, apesar de eu estar cada vez mais rendido às caixas automáticas. No entanto, não deixo de questionar o porquê de não ser uma caixa mais atual – nem que a copiassem da Ferrari senhores da ATS, afinal era só mais uma “coisinha de nada”…

O tempo vai certamente revelar mais sobre este modelo. O próximo ATS 2500 GT pode ser apenas uma miragem, na linha da quase-miragem que foi o antecessor. É nestes momentos que marcas como a ATS, como já disse, podem ver a luz ao fundo do túnel. Esperemos é que não seja o comboio em sentido contrário.

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