Travestis Japoneses invadem Paris – Peugeot 4008

Em 2008, o grupo PSA (Peugeot-Citroen) estudava a possibilidade de adquirir parte da Mitsubishi Motors, numa tentativa de alargamento substancial da sua posição no mercado da produção automóvel a nível mundial.

O negócio acabou por não se concretizar, mas os contactos com o gigante japonês levaram a uma parceria que resultou, entre outras, na construção de dois SUV franceses na fábrica de Okazaki: o C-Crosser para a Citroen e o 4007 para a Peugeot, carros geneticamente japoneses, ou não fosse a sua base o Mitsubishi Outlander.

A entrada da Peugeot na guerra dos SUV compactos faz-se agora com o 4008, que tem por base o Mitsubishi ASX. É com um leão possante na frente (seguindo a tendência dos novos modelos da marca) que a Peugeot entra num território dominado pelo Nissan Qashqai. Este novo felino da marca apresenta-se como um modelo completamente novo dentro do segmento.Compacto e com um look que junta a desportividade à necessidade de resposta a um dia-a-dia exigente, o 4008 é ágil e leve na vista, como tive a oportunidade e privilégio de constatar há bem pouco tempo por terras algarvias. Digo privilégio, porque não será fácil ver este modelo por terras lusas, muito menos com a matrícula nacional, dado que a Peugeot decidiu não o comercializar em Portugal por considerar que este é muito próximo do 3008 e acreditar que o nosso pequeno mercado não o iria absorver devidamente.

O primeiro impacto foi positivo: o modelo apresentado no salão de Genebra em Março deste ano é um carro jovem, dinâmico e com uma frente agressiva que faz corar o irmão japonês. No entanto, não são precisos muitos segundos para que o sentimento de admiração se cale e dê lugar a uma indiferença ensurdecedora. O Peugeot 4008 é um produto moderno e fácil, tem como origem um mais pobre ASX com o qual partilha um coração japonês e é “pintado” com um design francês mais refinado, cromados e pneus de baixo perfil que podem acomodar umas jantes brilhantes de 16 ou mais polegadas, consoante o seu comprador queira parecer menos ou mais ridículo.

No interior, aproveitou-se ao máximo o que já se encontrava presente no modelo asiático, sendo que a marca francesa limitou-se apenas a espalhar leões pelo cockpit e pouco mais, tal como fez a Citröen para o novo C4 Aircross, a outra capa francesa do ASX.
É certo que são fruto de uma parceria, mas tal não impede que sejam à prova de críticas, principalmente quando falamos de marcas que se têm vindo a afirmar em segmentos que competem com colossos de qualidade e vendas. Um novo modelo não pode ser uma coisa por fora e mais do mesmo por dentro, porque combater a concorrência com cópias abrilhantadas até pode ficar bem no balanço de caixa, mas pode custar muito mais no futuro. Por outro lado, compreende-se a necessidade de reduzir os custos de produção ao mínimo, principalmente nos tempos que correm e este pode ser mesmo o único argumento a favor desta união de produtos.

Para o mercado nacional apenas estarão disponíveis dois motores a gasóleo no C4 Aircross: uma versão de 115 cv do bloco 1.6 HDi do grupo PSA e um 1.8 HDi, com 150cv, de origem Mitsubishi, com tracção integral e com preços a arrancar nos €30.800 para o primeiro. Resta-nos que surja a oportunidade de tirar a prova dos nove e colocar um destes “irmãos gémeos falsos” frente-a-frente com os líderes do segmento da moda. No fundo, ambos são uma tentativa de vender um vestido da estilista Coco Chanel, que não passa despercebido na multidão pois salta à vista, costurado com materiais japoneses que certamente durarão muito tempo, mas quem o vestir já sabe: vai sentir uma etiqueta irritante a arranhar-lhe as costas.

E já sabem, passem por aqui para opinarem sobre o novo Peugeot 4008.


Texto: Diogo Teixeira