24 Horas de Le Mans

O motor que durou exactamente 24 horas

O motor do Porsche 956 #3 apenas cedeu quando passou a bandeira de xadrez. Como se também ele tivesse consciência que faltava só mais um «bocadinho».

24 Horas de Le Mans. Uma das provas mais exigentes do mundo. Homens e máquinas são levados ao limite, volta após volta, quilómetro após quilómetro. Numa correria desenfreada, dentro e fora da pista, que só acaba quando o cronómetro – sem pressa nenhuma – marcar 24 horas.

Um exigência que ficou bem patente nesta 85ª edição das 24 Horas de Le Mans. Apenas dois carros da categoria máxima (LMP1) cruzaram a linha da meta.

Os restantes abandonaram a prova devido a problemas mecânicos. Uma situação incómoda para a organização da prova, que já começa a ouvir vozes discordantes quanto ao caminho (e complexidade) que os carros estão a tomar.

Já o ano passado, haviam decorrido 23h56min de prova – ou por outras palavras, faltavam menos de 4 minutos para o fim – quando Le Mans decidiu reclamar mais uma vítima.

O motor do Toyota TS050 #5, que liderava a corrida, calou-se em plena reta da meta. Na boxe da Toyota, ninguém queria acreditar naquilo que estava a acontecer. Le Mans é implacável.

Recorda o momento neste vídeo:

Por apenas 3:30 minutos, a vitória escapou à Toyota. Um momento dramático que ficará para sempre gravado na memória de todos os aficionados das corridas.

Mas a corrida dura 24 horas (vinte e quatro horas!)

Leram bem? 24 horas. Nem mais nem menos. As 24 Horas de Le Mans só terminam quando o homem que enverga a bandeira de xadrez assinala vigorosamente o fim desta «tortura» para homens e máquinas.

Uma tortura a que muitos se sujeitam apenas pelo sabor da glória. Um motivo que vale por si só, não acham?

Chegamos finalmente à história que quero partilhar convosco. Em 1983, não foi só o cronómetro que estava atento à passagem do tempo. O motor do Porsche 956 #3 pilotado por Hurley Haywood, Al Holbert e Vern Schuppan também estava.

Porsche 956-003 que venceu Le Mans (1983).
Porsche 956-003 que venceu Le Mans (1983).

Os carros também têm alma?

Valentino Rossi, uma lenda viva do motociclismo ainda no ativo – e para muitos o melhor piloto de todos os tempos (para mim também) – acredita que as motas têm alma.

Antes do arranque de cada Grande Prémio, Valentino Rossi fala sempre com a sua mota.
Uma mota não é só metal. Eu acho que as motas têm alma, é um objeto demasiado belo para não ter alma.
Valentino Rossi, 9x Campeão do Mundo

Não sei se os carros também têm alma ou se são meros objetos inanimados. Mas se porventura os carros tiverem mesmo alma, o Porsche 956 #3 que recebeu a bandeirada de xadrez com Vern Schuppan ao volante é um deles.

Como um atleta que num último fôlego é carregado até à meta, mais pela vontade férrea do que pelas força dos músculos que há muito já cederam, também o Porsche 956 #3 parece ter feito um esforço para que os cilindros do seu motor flat-six apenas deixassem de bater após a missão para a qual nascera estar completa. Vencer.

Assim que o Porsche 956 passou a bandeira de xadrez, o fumo azul que saiu do escape denunciou o seu fim (imagem em destaque).

Podem assistir a esse momento neste vídeo (minuto 2:22). Mas se fosse a vocês assistia ao vídeo completo, vale a pena:

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