O primeiro “Panamera” foi um… Mercedes-Benz 500E.

04/04/2017
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A história da Porsche está repleta de “parcerias improváveis”. O Mercedes-Benz 500E é um desses exemplos.

Como sabem, até à viragem do século XXI a Porsche não era uma marca com um volume de produção muito elevado.

Até meados dos anos 90, a marca Porsche resumia-se ao icónico 911 e a mais um punhado de modelos, produzidos com a mesma velocidade com que eram descontinuados. Isto claro, sem contar com o bem sucedido programa desportivo da marca – falar da Porsche e não falar de desporto motorizado é quase um crime.

Vencedora nas pistas, foi só com o lançamento do Cayenne (uma história que vale a pena explorar noutro artigo), que a Porsche começou a ganhar as “corridas” financeiras. Até então, as receitas da Porsche dependiam, em parte, de projetos e parcerias com outras marcas.

Uma tradição que remonta a 1931. Ou seja, uma tradição anterior(!) à própria Porsche enquanto fabricante de automóveis. Recordamos que o primeiro modelo 100% Porsche foi o 356, lançado em 1948.

Mercedes-Benz 500E

Entre outras parcerias e modelos com cunho da Porsche podemos recordar o Volkswagen Carocha, o Lada Samara (sim, um Lada!), a primeira geração do Ibiza (que vinha equipada com um motor System Porsche), o Audi RS2, o VW-Porsche 914 e até a primeira geração do Opel Zafira, entre outros.

Off-topic: sabiam que o primeiro motor da Harley-Davidson refrigerado a líquido foi desenvolvido pela Porsche?

Mas não é de nenhum destes modelos que vos queremos falar hoje. Como já adivinharam pelas imagens, trata-se do Mercedes-Benz 500E.

Porsche e Mercedes-Benz juntas? E a AMG?!

A AMG existe desde 1967 – a marca comemora este ano 50 anos de história. Mas só em 1999 é que a Daimler, proprietária da Mercedes-Benz, decidiu assumir o controlo desta preparadora.

Tivemos de esperar até 2005 para a Daimler adquirir 100% do capital da AMG e assumir definitivamente o controlo absoluto da preparadora de Affalterbach.

Mercedes-Benz 500E

Até à consumação do matrimónio entre a AMG e a Mercedes-Benz, a marca de Estugarda teve outros affairs… nomeadamente com a Porsche. Sim, com a Porsche..! Literalmente, the girl next door versão petrolhead.

Como assim?

As duas marcas até chegaram a partilhar casa – leia-se, fábricas. A fábrica da Porsche de Rossle-Bau em Zuffenhausen, foi o cenário desta relação improvável. Mas vamos aos factos…

No início dos anos 90 a Mercedes-Benz decidiu que tinha de produzir uma versão mais desportiva do W124. Por esta altura, o BMW M5 já ia na 2ª geração (E34) e debitava uns saudáveis 315 cv extraídos de um motor de seis cilindros em linha com 3.6 litros. A Mercedes não podia deixar isto continuar.

Mercedes-Benz 500E

Sem «mãos a medir» na fábrica de Sindelfingen face às encomendas do W124, a Mercedes-Benz viu na Porsche o parceiro ideal para produzir e desenvolver o modelo que viria a chamar-se Mercedes-Benz 500E.

Na prática, uma «superberlina» com bancos Recaro, suspensão desportiva, look sóbrio, animada por um motor 5.0 litros V8 capaz de desenvolver 326 cv de potência. A sua velocidade máxima era de 270 km/h (sem limitador) e cumpria os 0-100 km/h em apenas seis segundos.

Regressando à AMG, na altura a preparadora alemã não tinha meios humanos nem técnicos para a produção de um modelo desta escala.

A AMG podia ter encarado o 500E como um «filho bastardo» da Mercedes, mas não. Muito pelo contrário, o 500E foi recebido de braços aberto em Affalterbach (sede da AMG).

Além de ter sido produzido pela Porsche, o 500E levou também um ligeiro tratamento «Porsche».

As cavas das rodas foram aumentadas para receber mais «borracha», o túnel de transmissão foi alargado, as suspensões revistas e inclusivamente alguns painéis do chassis foram reforçados. Diz quem conduziu o E400 que as diferenças para o 500E iam muito além da estética e da potência.

Portanto, se quisermos ser rigorosos (ou picuinhas…) podemos afirmar que a primeira berlina produzida pela Porsche não foi o Panamera… foi o Mercedes-Benz 500E!

Qualidade artesanal

Estes «namoros de verão» tendem sempre a correr mal – ainda que o resultado por vezes seja de boa memória, como é caso.

A NÃO PERDER: A mudança misteriosa do 959

As carroçarias do W124 saiam da fábrica de Sindelfingen (a unidade fabril mais antiga da Mercedes-Benz) e rumavam a Rossle-Bau para serem modificadas – fabrica onde estava localizada a linha de produção do extinto Porsche 959.

O contrato previa uma produção de 2400 modelos por ano, sob padrões de alta qualidade artesanal. Conseguem ver os Mercedes-Benz 500E junto aos Porsche?

Mercedes-Benz 500E

Tal como no 959, a linha de produção do 500E também era composta por plataformas rolantes que eram empurradas à mão. As soldaduras, na sua maioria, também dispensavam o recurso a máquinas.

Resultado: nenhum 500 E era exatamente igual ao outro. Existiam sempre diferenças no alinhamento dos painéis da carroçaria. Este processo artesanal é uma das razões pelas quais é dado um valor especial ao 500E. Desde então, mais nenhum Mercedes-Benz foi fabricado assim.

Um pesadelo logístico

Terminada esta primeira fase de modificação das carroçarias, um camião de transporte especial levava novamente as carroçarias para Sindelfingen, onde eram sujeitas ao tratamento de pintura e galvanização da carroçaria.

Terminada a pintura… nova viagem para Rossle-Bau para a montagem final. Mas as viagens não terminam aqui!

Depois dessa montagem final, nova viagem Sindelfingen, onde todos os modelos eram sujeitos a uma inspeção final. Ao todo, este processo demorava uns penosos 18 dias.

Como disse anteriormente, o resultado foi memorável mas era um verdadeiro pesadelo logístico. Terá sido o primeiro e o último modelo nascido desta parceria.

Até hoje, Porsche e Mercedes-Benz nunca mais partilharam um projeto desta dimensão. Terá sido caso único, do qual nasceram 10 479 unidades. Um namoro de verão muito intenso.

Os telhados de vidro da AMG.

Nesta verdadeira novela mexicana regada a gasolina, a AMG também tem telhados de vidro…

Na década de 80, a preparadora alemã esqueceu por momentos a Mercedes-Benz e perdeu-se de amores por uma jovem japonesa, de seu nome Mitsubishi. A história continua aqui.

Talvez num próximo “episódio”, voltemos a este assunto para falar do meio-irmão deste Mercedes-Benz 500E. Chama-se Audi RS2 e também foi produzido na mesma fábrica. To be continued… 

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Diretor Editorial e co-fundador da Razão Automóvel. Tem 29 anos, ama os automóveis mas tem uma paixão secreta: as duas rodas! Praticante de todo-o-terreno, iniciou-se nas lides da condução aos comandos de um Citroen Ax. Não resiste a umas boas curvas, seja no asfalto ou numa folha de papel.