Kia Niro 1.6 GDI HEV: testámos o primeiro híbrido da Kia

Testámos o primeiro híbrido da Kia. O Kia Niro 1.6 GDI HEV assume o formato de crossover para conquistar o mercado.

Na Europa os híbridos não têm vida fácil. A pouca expressão no mercado europeu advém da forte concorrência dos Diesel, apesar do número de propostas híbridas ter crescido consideravelmente nos últimos anos. O cenário, no entanto, deverá mudar. Os custos crescentes dos Diesel associados ao cumprimento das normas de emissões poderão torná-los economicamente inviáveis para os construtores nos segmentos mais acessíveis. Automóveis híbridos e, sobretudo, semi-híbridos deverão tomar o seu lugar no início da próxima década.

É neste contexto que nos cruzamos com o Kia Niro 1.6 GDI HEV. Trata-se de um novo crossover da marca coreana que se posiciona entre o mais pequeno Soul e o maior e bem sucedido Sportage. Não terá motorizações Diesel, estando disponível apenas com uma motorização híbrida e, no final do ano, será complementado com uma versão híbrida plug-in. De momento, só tem efetivamente um concorrente, o aguerrido Toyota C-HR 1.8 HSD.

2017 Kia Niro

O mundo parece estar mesmo ao contrário quando é a Toyota a ter no CH-R o crossover de estilo mais marcante e original, mesmo que não seja ao gosto de todos. O Kia Niro, por outro lado, tendo em conta ao que Peter Schreyer (o diretor de design de todo o grupo Hyundai) nos tem habituado, desilude em parte nesse capítulo. Parece estar um patamar abaixo dos outros crossover da marca, nomeadamente o “funky” Soul ou o estilizado Sportage. Deste último devia herdar as proporções e assertividade. Acaba por ser algo conservador e de alguns ângulos, estranha-se, mas não se entranha.

O que é, afinal, o Kia Niro?

O Kia Niro partilha com o Hyundai Ioniq as suas fundações. Este último estreou na Hyundai uma plataforma exclusiva dedicada a modelos híbridos e elétricos. Ambos os modelos apresentam os mesmos 2.7 m de distância entre eixos. No entanto, o Kia Niro é mais curto e estreito e assume a tipologia que quer dominar o mundo: o crossover.

Da mesma forma, o Niro herda do Ioniq o seu grupo motriz. Dois motores encarregam-se de motivá-lo. O motor de combustão interna é um quatro cilindros de 1.6 litros a gasolina, que recorre ao mais eficiente ciclo Atkinson, e debita 105 cavalos. A complementá-lo temos também um motor elétrico síncrono de imã permanente que gera 44 cavalos e disponibiliza a partir das zero rotações 170 Nm de binário. Este é alimentado por um conjunto de baterias de iões de lítio de 1.56 kWh.

Combinando os dois obtemos um máximo de 141 cv e 265 Nm, suficientes para mover de forma eficaz a quase tonelada e meia do Kia Niro. A transmissão tem seis velocidades e a caixa é de dupla embraiagem. Aqui reside a grande diferença entre o Niro e outros híbridos, como o C-HR. Este último recorre a uma CVT (caixa de variação contínua).

Complexo, mas com muito bons resultados

O casamento entre o motor de combustão e o elétrico é bastante harmonioso. É, no geral, praticamente imperceptível a transição entre as duas motorizações, resultando numa experiência refinada. Também contribui para isso a muito boa insonorização do modelo coreano.

O painel de instrumentos ou o ecrã central permitem ver qual o motor que contribui para mover as rodas, pelo que, na maior parte das vezes, só olhando para esse gráfico se percebe quando o motor de combustão interna está em funcionamento. A excepção surge quando decidimos calcar o acelerador de forma “menos ecológica”. A transmissão mantém as rotações do 1.6 bem lá em cima quando é necessário.

Kia Niro HEV - ecrã central

O Kia Niro, oficialmente, permite 2-3 km em modo exclusivamente elétrico. No entanto, pela experiência deste teste, acaba por parecer muito mais. O motor elétrico permanece em funcionamento por extensos períodos de tempo. Talvez seja uma questão de percepção, mas devido à geografia acentuada de Lisboa e arredores, exceptuando as subidas ou o pé pesado, o motor de combustão prima sobretudo pela sua ausência.

Para tal, é necessário manter a carga das baterias em níveis decentes. Em todas as oportunidades possíveis, vemos o fluxo de energia ser revertido para as alimentar. Todas as travagens e descidas e até o abrandar em aproximação a um cruzamento ou semáforo, vemos energia a ser enviada em direção às baterias. Caso o nível da carga esteja baixo, o motor de combustão interna assume o papel de gerador.

Como acontece com outros híbridos, também o Niro brilha, sobretudo, num contexto citadino. Existem mais oportunidades de aproveitar os eletrões, e assim, quanto mais tráfego, mais economia. O consumo no final do teste – 6.1 l/100 km – incluiu autoestrada e secções mais curvilíneas de asfalto, a ritmos mais vivos. Em uso regular, no meio do tráfego matinal e vespertino, conseguimos registar consumos entre 5.0-5.5 l/100 km.

Guerreiro ecológico?

Toda a mensagem do Niro gira à volta da economia e ecologia. Até nos desafia com pequenos jogos para obter os melhores consumos e emissões possíveis. Seja o subir de nível no que toca a condução ecológica, onde a passagem de cada nível “ilumina” uma parte de uma pontilhada árvore, ou avaliar o nosso estilo de condução. Divide-o em três categorias: Económico, Normal e Agressivo. À frente de cada categoria surge um valor percentual, e quando Agressivo é o que apresenta o número maior, sabemos que estamos a fazer algo de mal.

É este foco que torna a escolha dos pneus do Niro peculiar. Em Portugal, o Kia Niro vem de série com Michelin Pilot Sport 4 com as medidas 225/45 R18.. Pneus “verdes”? Nah! Aqui há borracha digna de desportivos…Relembro que estamos perante um crossover vocacionado para uso urbano, com 140 cv e a rondar a tonelada e meia de peso. Precisamos de ir para o mundo de coupés, roadsters e hot-hatch para encontrar pneus desta qualidade, com mais 50-70 cavalos do que o Niro.

Viesse com os pneus de origem existente em outros mercados, uns mais modestos 205 acompanhados com jantes de 16 polegadas, e preciosas décimas de litro seriam poupadas e as emissões oficiais ficariam abaixo das 100 gramas de CO2 (101 g oficiais). Com as rodas mais “modestas”, o Kia Niro apresenta 88 g CO2/km.

Não que me queixe. Estes pneus oferecem excelente aderência, acabando por definir o comportamento do carro. É necessário conduzir como um maníaco que não tem nada a perder para chegar aos limites. O Kia Niro não é esse tipo de carro. Dinamicamente é eficaz e previsível, resiste eficazmente à subviragem e mantém sempre a postura, mesmo quando exigimos mais dele.

O chassis vem com os ingredientes certos: Suspensão independente nos dois eixos, com amortecedores a gás e eixo multilink na traseira. Permite controlar eficazmente os movimentos da carroçaria e o adornar desta. É sem dúvida seguro. O pisar tende um pouco para o firme, mas as jantes 18 e perfil 45 poderão ter alguma responsabilidade nesse departamento. Apesar disso, lida muito bem com as imperfeições da estrada.

Espaço para quase todas as necessidades

Como familiar apresenta muito bons índices de habitabilidade e acessibilidade. Atrás, as cotas rivalizam com as do maior Sportage. A bagageira, apesar da boa largura interna, tem uma capacidade total de 347 litros, um valor razoável. A visibilidade, no geral boa, apenas peca na traseira. Um problema dos nossos dias. A presença da câmara traseira no Niro, mais do que um gadget, começa a ser uma necessidade.

O interior, tal como o exterior, tende para o conservador. No entanto, a ergonomia é no geral correcta, a robustez parece em excelente plano e os pontos de contacto mereceram cuidado. O Niro traz volante e apoio de braços em pele, por exemplo. Facilmente se encontra uma posição de condução ideal, graças à amplitude da regulação do volante e do banco do condutor, que é elétrica.

O que nos leva à excelente dotação de equipamento de série. Oferta ampla de equipamento, onde os únicos opcionais resumem-se à pintura metalizada (390€) e ao Pack Safety (1250€) os quais a nossa unidade também trazia. Este inclui travagem autónoma de emergência, cruise control adaptativo, detector de ângulo morto e alerta de tráfego à retaguarda. Como acontece com outros Kia, também o Niro vem com sete anos de garantia.

Conclusão

O crossover coreano convenceu. Longe de ser a proposta mais excitante no mercado, apesar dos pneus desportivos, as qualidades do Niro sobressaíram no meio do caos urbano. O refinamento é elevado, assim como o silêncio a bordo. Espaçoso e robusto, confortável q.b., o Niro é uma proposta bastante competitiva e uma séria alternativa relativamente às propostas Diesel do segmento.

Fotografia: Diogo Teixeira

Segue a Razão Automóvel no Instagram e no Twitter

Pub