Sérgio Marchionne. O California não é um Ferrari a sério

2014 Ferrari California
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A opinião proferida sobre o Ferrari California não é nossa, mas do diretor executivo da marca, o polémico Sergio Marchionne. Uma opinião que surge no contexto do Salão de Genebra, em declarações aos jornalistas sobre a Ferrari e o seu futuro.

Sergio Marchionne, atual diretor executivo da Ferrari e da FCA, é conhecido por não ter “papas na língua” – por diversas vezes já proferiu palavras controversas em relação aos seus produtos. E nem a Ferrari escapa…

No Salão de Genebra, em conferência de imprensa, discutia-se a marca italiana e o seu futuro. Marchionne quis explicar aos jornalistas o processo de avaliação exaustivo pelo qual a Ferrari está atualmente a passar, de modo a encontrar novas oportunidades para expandir a marca. Obviamente, também os atuais modelos da marca foram colocados na “linha de fogo”, como o California:

Sergio Marchionne em Genebra 2017

 

O carro com que tive mais dificuldades [no processo de avaliação] foi o California. Comprei dois e gostei muito do primeiro [1ª geração], mas é o único carro, de um ponto de vista de identidade, que tenho dificuldade em ver como um verdadeiro Ferrari. […] Este é o maior tópico de conversação na Ferrari neste momento.

Mais uma vez, Marchionne a pôr em causa um dos seus modelos.

Mas existe substância nas suas declarações?

Escrever um título destes sem ir ao fundo da questão seria «clickbait». Portanto vamos ao cerne da questão.

As origens do California remontam ao período em que a Maserati era gerida pela Ferrari. O roadster-coupe foi inicialmente desenvolvido para ser um Maserati – um sucessor em simultâneo do 4200 e do Spyder.

Devido à complexidade crescente do modelo, o preço final ficaria muito acima do ideal para a marca do tridente. O desenvolvimento do desportivo já se encontrava em fase bastante avançada, pelo que a Ferrari decidiu vendê-lo com o seu próprio símbolo, com um preço final mais elevado do que aquele que a Maserati podia pedir.

2014 Ferrari California T

As críticas não se fizeram esperar dos media após os primeiros contactos. O California ficava algo aquém do que a Ferrari moderna nos habituara.

A profunda renovação do modelo efetuada em 2014 – o atual California T – atenuou as críticas e a sua apreciação global subiu. Apesar das declarações proferidas, não significa que o desportivo vá ser abandonado. É o seu papel e carácter que estão a ser questionados, o que poderá indicar um sucessor distinto para o modelo que serve de acesso à gama da marca italiana.

Não consegues comprar um Ferrari? Compra um Lamborghini

Se as opiniões sobre o California já geraram controvérsia, o que dizer disto:

Tenho muito respeito por Stefano Domenicali (atual diretor executivo da Lamborghini). Mas muitas pessoas compram Lamborghini porque não conseguem pôr as suas mãos num Ferrari.

Felizmente existe um contexto. Marchionne referia-se à performance comercial da marca. O ano passado a Ferrari vendeu 8014 unidades, e este ano espera vender ainda mais modelos, aproximando-se das 8500 unidades. O problema não são as vendas, mas sim as listas de espera. Um relatório elaborado o ano passado indicava que as encomendas dos seus modelos estendiam-se até 2018. Demasiado tempo, portanto.

O aumento de produção é justificado em parte para fazer face às enormes listas de espera.

2015 Ferrari 488 GTB

Existe um patamar de 10 mil unidades anuais que, especula-se, a Ferrari não pretende ultrapassar para manter a exclusividade – e também para não ficar sujeita a normas ambientais mais restritivas.

No entanto, declarações mais recentes revelam que esse limite pode ser ultrapassado, graças ao lançamento de novos modelos. Mas não será com o adicionar de um SUV (sinónimo de alívio financeiro…) à gama, como a Lamborghini se prepara para fazer. Quais são, também não se sabe. Talvez o já mencionado, confirmado e cancelado (umas 10 vezes!) Ferrari Dino esteja novamente na calha…

Os V12 são para ficar

Com a pressão crescente no que toca a emissões, especulou-se sobre o fim do coração da Ferrari mais puro e desejado – o V12 naturalmente aspirado. Será que também irá ceder à sobrealimentação ou até ser eliminado? Segundo Marchionne: “A resposta é não – o V12 tem de permanecer, sem turbos”. Obs: é favor bater palmas!

2017 Ferrari 812 Superfast

O que veremos – usando o La Ferrari como referência – é a eletrificação parcial da unidade motriz. Previsivelmente a escalada de potência não terminou com os 800 cavalos do F12 Superfast. E, segundo Marchionne, o objectivo é mesmo aumentar a performance e não reduzir as emissões:

“Não estamos a tentar alcançar metas de CO2 – o que estamos a tentar é realmente melhorar a performance do carro. O objectivo real é o de combinar o motor a gasolina com o motor elétrico para obter o máximo de potência.”. […] “É um desafio combinar o motor elétrico com o motor de combustão para o máximo de potência. [O próximo passo] está apenas a dois anos de distância. Esperem.”

Se os V12 parecem ter lugar garantido no futuro da Ferrari, o mesmo não se pode dizer da transmissão manual. Quando questionado sobre um eventual regresso da icónica grelha em duplo H à consola central, os mais saudosistas bem podem esperar sentados. Atualmente já não existem Ferrari com caixa manual e assim permanecerá. A caixa de dupla embraiagem e as longas patilhas por detrás do volante continuarão a marcar presença nos próximos Ferrari.

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Declarações controversas à parte, o futuro da Ferrari parece assegurado. Faltou referir que a nova geração de modelos fará uso de uma nova plataforma modular, ainda usando o alumínio como material principal, sejam desportivos com motor central traseiro ou GT com motor frontal.

Quanto a Sergio Marchionne, está previsto no próximo ano sair da liderança da FCA, mas deverá permanecer como diretor executivo na Ferrari. Aguardamos ansiosamente pelas suas próximas declarações!

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