DAF Turbo Twin: o «supercamião» que queria vencer o Dakar à geral

Jan De Rooy queria vencer o Dakar ao volante de um camião. Dessa vontade nasceu o DAF Turbo Twin. Uma besta de 10 toneladas que superava os 220 km/h.

A década de 80 foi uma época de excessos – algo que escrevo orgulhosamente na qualidade de pessoa nascida e criada nessa maravilhosa época em que os parques infantis ainda tinham areia no chão e baloiços potencialmente mortais (hoje não têm). Geração de 80 ao poder! Ok, menos…

Voltando ao tema, como dizia, a década de 80 foi uma época de excessos. Na Fórmula 1 tínhamos monolugares com zero electrónica e mais de 1200 cv, nos ralis tínhamos os Grupo B que eram verdadeiros protótipos com mais de 600 cv, na resistência tínhamos os Grupo C e no Dakar tínhamos camiões com mais de 1000 cv, capazes de atingir os 220 km/h.

Entre os vários camiões que participavam no Dakar, haviam uns que se destacavam dos demais: os DAF da equipa De Rooy.

Em 1985 a equipa De Rooy não estava no Dakar para dar assistência rápida aos carros, estava lá para batê-los. Isso mesmo. Para dar uma tareia a carros que na sua base derivavam dos carros de ralis do Grupo B. Insano, não é? O vídeo acima foi só um aperitivo.

Camiões. Uma doença de família

A doença dos camiões é um mal que afeta três gerações da família De Rooy (ainda é cedo para falar da 4ª geração…). Tanto o pai de Jan De Rooy como o seu filho Gerard (que ganhou as edições de 2012 e 2016 do Dakar) respiram camiões – não só respiram, como vivem de uma empresa de transportes com o nome de família. Destes, foi Jan De Rooy que pode exprimir com maior intensidade a sua paixão por estes «monstros» motorizados.

Hoje os regulamentos do Dakar não são aquilo que eram, para o bem (da segurança) e para o mal (do espetáculo). Mas houve um tempo em que tudo era permitido. T-U-D-O!

Foi da mente de Jan De Rooy, que nasceram os mais icónicos camiões do Dakar (vamos esquecer o Kamaz por momentos). Com base nos camiões holandeses da DAF, Jan De Rooy alinhou no Dakar de 1982 a 1988. A cada edição do Dakar, este holandês piloto/engenheiro/inventor (como preferirem…) puxava cada vez mais e mais pela performance dos seus DAF.

Uma luta de gigantes

Para os que nesse tempo ainda não eram nascidos, ou não tinham idade para se recordar – como eu, que apenas tomei conhecimento destes camiões através de uma conversa de amigos – saibam que foi na década de 80 que se deu a grande rivalidade entre a DAF e a Mercedes-Benz no Dakar. Essa rivalidade levou ao desenvolvimento de camiões com dois motores (um por cada eixo), com potências combinadas acima dos 1.200 cv.

Foi num ápice que a categoria dos camiões evoluiu de camiões praticamente de série em 1982, para camiões altamente modificados em 1984. Uma das soluções mais surpreendentes de De Rooy surgiu precisamente em 1984, quando este doente dos «pesados» decidiu participar no Dakar com um camião com duas cabines. Nos regulamentos não dizia que era ilegal, portanto… vamos a isso! É impossível não gostar do tipo…

Nesta galeria (mais abaixo) podem ver imagens desse camião, o “Tweekoppig Monster”, que em português deve significar algo como “mostro de duas cabeças”:

Em caso de acidente, era só trocar de uma cabine para outra e seguir a prova. Uma solução interessante, mas que não venceu devido a um acidente. Em 1986 começou a escalada de potência, e as soluções engenhosas foram trocadas por soluções de engenharia – gostaram do trocadilho?

De Rooy apresentava assim a primeira geração do DAF Turbo Twin, uma máquina pensada de raiz para a competição (à excepção da cabine que derivava do DAF 3600) e que era capaz de alcançar os 200km/h. Porém, a quebra do eixo da transmissão na 15ª etapa do Dakar, fez com que Jan de Rooy se visse obrigado a desistir. O melhor ainda estava para vir…

Em 1987 o DAF Turbo Twin II – uma versão mais potente e mais leve do modelo de 1986 – chegou, viu e venceu, ao fazer tempos à geral dentro dos 10 primeiros e ganhando inclusivamente uma etapa aos automóveis. Mas foi em 1988 que as coisas se tornaram verdadeiramente assombrosas. Foi neste ano que coisas se tornam verdadeiramente interessantes (e trágicas também…).

Já não chegava bater os camiões

Para Jan de Rooy ganhar aos restantes camiões já não era desafiante. De Rooy precisava de um desafio maior: vencer o Dakar… à geral! E vencer o Dakar à geral significava bater a armada de protótipos da Peugeot (que tinham por base os carros do Grupo B) com Ari Vatanen à cabeça. Impossível? Talvez não.

Em 1988 este holandês alinhou no Dakar com dois supercamiões (este termo existe?): o DAF 95 Turbo Twin X1 e X2. Dois camiões construídos de raiz com um único propósito, levar a concorrência à frente – ou a reboque se fosse preciso…

Estes camiões recorriam, cada um, a dois motores turbo diesel com 11.600cc montados em posição central. Cada motor era alimentado por três turbocompressores (dois de geometria variável!), desenvolvendo mais de 600cv de potência e 2.000 Nm de binário máximo. Ou seja, mais de 2.400 cv de potência combinada e 4.000 Nm de binário máximo.

Números mais que suficientes para fazerem estes monstros com 10 toneladas acelerar dos 0-100km/h em apenas 8 segundos e superar os 220km/h de velocidade máxima. Recordamos que naquela época o regulamento do Dakar não impunha limites à velocidade máxima dos veículos – hoje há limites (150km/h) e o controlo da velocidade por GPS é muito apertado.

Uma das imagens mais marcantes do Dakar de 1988 foi esta (vejam o vídeo):

Air Vatanen e Jan de Rooy, lado a lado, a fundo no deserto africano! “David” no Peugeot contra “Golias” no camião. Gostava de ver a cara de Ari Vatanen quando olhou pelo espelho do seu Peugeot 405 T16 Grand Raid e viu o DAF Turbo Twin a ganhar terreno igualando a sua velocidade de ponta.

A tragédia (inevitável)

Tal como os Grupo B de rali e os Grupo C de resistência, também esta categoria ficou marcada pela tragédia.

Numa duna com um declive inesperado, um dos dois DAF Turbo Twin, pilotado por Theo van de Rijt (o 95 X2 na imagem) deu um salto a mais de 190 km/h. No contacto com o solo, a suspensão foi incapaz de suster as 10 toneladas de peso e o X2 capotou seis vezes.

O navegador e engenheiro Kees van Loevezijn teve morte imediata, enquanto que Theo van de Rijt ficou gravemente ferido mas sobreviveu.

Face a esta tragédia, a DAF retirou-se da competição e Jan de Rooy abandonou a prova. O piloto e engenheiro holandês regressaria ao Dakar apenas 10 anos depois. A ASO, entidade que organiza o Dakar, decidiu acabar com este categoria e regressar aos camiões derivados de série. Desde então, a potência dos camiões nunca mais chegou aos 1.000 cv de potência.

Foi o fim da «época dourada» dos camiões no Dakar. Uma época que ficará na nossa memória graças a imagens como estas, e claro, à nossa secção de artigos dedicada às glórias do passado (vê mais histórias aqui).

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