Já conduzimos o Morgan 3 Wheeler: soberbo!

23/03/2016
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O Morgan 3 Wheeler é um veículo tão fantástico que só podia ter sido inventado por um inglês. Nunca me diverti tanto a 40 km/h!

Os «bifes» podem ter muitos defeitos – um deles é terem o termostato corporal avariado (até dá gosto vê-los a passear por aí, todos encalorados, com 7º de temperatura. Ah valentes!) – mas no meio de todos esses defeitos de fabrico, há qualquer coisa inscrita no ADN daquela rapaziada nascida onde-o-sol-brilha-poucas-vezes que os estimula a terem ideias brilhantes. Ideias que até podem ser (e são…) descabidas à luz do resto do mundo mas que no final de contas fazem todo o sentido. Vamos aos factos.

Frente a frente com o resto do mundo, os alemães até podem ter inventado o automóvel, mas foram os ingleses que inventaram os roadster (1-0); os italianos até podem ter desenhado alguns dos automóveis mais belos de sempre, mas foram os ingleses que pela primeira vez lançaram um modelo de produção com verdadeiras preocupações aerodinâmicas: o Jaguar E-Type (2-0) – obrigado Malcolm Sayer!

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Agora repara neste absurdo: foi num país onde o verão dura tanto tempo quanto aquele que tu demoraste a ler esta frase (e às vezes menos…), que nasceu o conceito roadster. Isso mesmo… carros desportivos, sem capota, de dois lugares, para andar depressa num país onde chovem cats and dogs. Resultado no final do primeiro tempo: 3-0. Três golos de elevadíssima nota artística. Depois desta exibição na primeira parte, pouco importa que na segunda parte (leia-se séc. XXI) os ingleses estejam a levar uma goleada monumental em quase todas as frentes.

Voltando às jogadas artísticas da primeira parte, as ideias descabidas não ficam por aqui. Naturalmente, tinha de ser um inglês a ter a brilhante ideia de casar o motor de uma motocicleta com um chassi de três rodas e assim criar o conceito cyclecar. O nome desse génio inglês é Harry Morgan, HFS para os amigos, fundador da Morgan.

“O raio de viragem do Morgan 3 Wheeler é equivalente ao de um navio porta-contentores: demasiado largo.”

Segundo a história (fica sempre bem dizer “segundo a história”) Harry Morgan não tinha muito jeito para andar de mota e simultaneamente sonhava construir um veículo fiável, prático e que fosse acessível para as massas – não vou chocar ninguém se disser que o Morgan 3 Wheeler foi o primeiro modelo a tentar democratizar o acesso ao automóvel pois não? Juntou estes dois pensamentos e criou o 3 Wheeler. Modelo que mais coisa menos coisa (lá se foi o rigor histórico), mais de 100 anos depois continua a ser muito semelhante ao das imagens.

Chega de história, vamos conduzir!

Como sabem, aqui na Razão Automóvel somos apaixonados por clássicos – ainda há bem pouco tempo conduzi um Porsche 911 Carrera 2.7, e dentro em breve vamos publicar um teste no Estoril ao volante de um Clio muito especial com Williams no nome… – portanto testar o Morgan 3 Wheeler foi para nós um privilégio.

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Mais uma vez escolhemos a bucólica Serra de Sintra, local de estradas desafiantes e curvas apertadas, para o nosso ensaio dinâmico e sessão fotográfica. O local escolhido não podia ter sido melhor. Curvas técnicas e encadeadas, envolvente lindíssima e uma acústica natural que sabe fazer entoar nos nossos ouvidos todos os ecos e gritos do motor V-Twin de 2.000cc que equipa o Morgan 3 Wheeler. Embalado pelo troar deste motor, foi impossível não recordar que estas curvas já foram, em tempos idos, percorridas por poetas e monstros do automobilismo mundial.

Terminada a contemplação, coloquei o romantismo de lado, reduzi uma mudança e acelerei a fundo. Com o ritmo a aumentar drasticamente (os 0-100km/h cumprem-se em apenas 6 segundos) declarei unilateralmente «guerra às curvas!» de Sintra. A resposta do motor, mais do que repentina, é acima de tudo encorpada, cheia e constante. Dito de outra forma: não são os 85cv de potência do motor que impressionam, são os 140Nm de binário máximo.

“Será que a frente vai morder o apex? Será que a traseira vai ter tração? Sinceramente, não queria obter essas respostas abraçado a um pinheiro.”

Com dois «canecos» de 1.000cc a baterem de forma desfasada lá na frente esperava mais vibrações. Felizmente os técnicos da Morgan conseguiram reduzir as vibrações ao essencial, sobrando apenas as vibrações suficientes para sentir que o conjunto está vivo. Quanto à caixa, só tenho a dizer maravilhas: está impecavelmente escalonada e é de uma precisão assinalável (não tivesse ela vindo do Mazda MX-5). A pedaleira parece ter sido herdada de um monolugar.

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Terminada a fase de aceleração, com a aproximação galopante das primeiras curvas, tirei a «faca dos dentes» e abordei as primeiras trajectórias com muita prudência, numa espécie de cessar fogo provisório, porque nunca tinha curvado num carro de três rodas.

Será que a frente vai morder o apex? Será que a traseira vai ter tração? Sinceramente, não queria obter essas respostas abraçado a um pinheiro. Além do mais, escusado será dizer que o Morgan 3 Wheeler não tem ABS, nem ESP, nem coisíssima nenhuma. Primeiras ilações: a direção transmite informação q.b, os travões cumprem a função e a traseira é muito previsível.

Ao fim de poucos quilómetros já tratava o eixo traseiro por tu e as rodas da frente já varriam as bordas do asfalto ao milímetro. Tentei conter o sorriso (porque dispenso dietas à base de insetos) e já com as medidas do Morgan bem tiradas olhei pela primeira vez para o painel de instrumentos “o quê?! Fiz aquela curva “só” a 50km/h? Isto está estragado!”. Olhei para um dos espelhos e vi que o Diogo ao volante de um Peugeot 308 SW seguia logo atrás de mim. “Ok, então eu vinha mesmo devagar!” pensei eu.

Se o Morgan 3 Wheeler fosse um super-herói, o seu super-poder seria disfarçar a velocidade. Sentado ao volante, a sensação que temos é de que podíamos bater os tempos da etapa da Lagoa Azul no Rali de Portugal, mas na verdade vamos a um ritmo relativamente comedido. Esta é a essência do Morgan: curva tão depressa como um utilitário, mas oferece as sensações de um desportivo «puro sangue». Com a vantagem de que é tudo muito mais fácil: os slides, as atravessadelas, tudo é fácil!

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Relativamente ao conforto, o Morgan 3 Wheeler não é tão desconfortável quanto parece – mas não se fiem muito em mim porque eu não sou de me queixar. A parte mais difícil  – e até engraçada (sem ter graça nenhuma) – é conseguir evitar os buracos. Eu desviava as rodas da frente dos buracos e pumba… em cheio com a roda de trás! Já que falamos de conforto, um dado interessante sobre esta unidade é que estava equipada com bancos aquecidos – um extra obrigatório caso estejam a pensar comprar um.

Em estrada aberta

Voltando a falar dos ingleses, outro dado interessante sobre os «bifes» é que ao contrário dos americanos, que têm a mania de guardar os carros durante décadas sem lhes tocar para não desvalorizarem, os ingleses usam tudo até à exaustão – seja um Mini Morris ou um Ferrari F40. Tem-se, então usa-se! É relativamente comum ver ingleses pela Europa fora em viagens de milhares de quilómetros ao volante de clássicos, quais intrépidos aventureiros. E sinceramente, eu via-me a fazer o mesmo no Morgan – um carro com patine tem outro charme, não concordas?

Morgan 3 Wheeler-13

Em estrada aberta é fácil circular a uma velocidade de cruzeiro na ordem dos 100km/h (segundo a marca, a velocidade máxima é de 180km/h). Mas acima dessa velocidade esqueçam, porque o vento não permite sequer conversas a bordo. Espaço para a mala de viagem? Pois… levem pouca roupa porque a mala não dá para muito – alias, a mala dá para pouco!

Outra coisa: habituem-se às buzinadelas amigáveis. Na estrada toda a gente nos acena e quer ser nosso amigo. Toda a gente sem excepção adora o carro, nos congratula e fica feliz à nossa passagem. Nunca conduzi um automóvel que despertasse uma empatia tão grande nas pessoas. As fotografias que nos tiraram foram mais que muitas. Em algumas delas até devia ter mosquitos cravados na testa. No problem

Em cidade é que não…

O raio de viragem do Morgan 3 Wheeler é equivalente ao de um navio porta-contentores: demasiado largo. É preciso calcular todas as manobras com muita antecedência, e ainda assim o mais certo é teres de meter marcha-atrás e tentar novamente. Depois, é impressionante como todos os autocarros e camiões conseguem apontar os escapes diretamente à nossa cara.

Traduzido por miúdos, conduzir o 3 Wheeler em cidade é um pequeno calvário. Além do mais, o motor V-Twin refrigerado a ar precisa de movimento para arrefecer, caso contrário a ventoinha de arrefecimento não pára. Fujam!

Resumindo…

O ambiente natural deste Morgan são mesmo as estradas nacionais e secundárias. Fujam das autoestradas e da cidade e vão ter no Morgan 3 Wheeler um verdadeiro companheiro de aventuras. Confesso que nunca me diverti tanto num carro a andar tão devagar.

Depois de o conduzir, percebo porque é que a Morgan continua a fabricar os 3 Wheeler: o mundo precisa disto. Na era da segurança, da eletrónica e da tecnologia, os 3 Wheeler estão nos antípodas disto tudo. Não aceita compromissos, só nos quer divertir e recusa filtros. Além do mais tem uma pinta do caraças!

Se pudesse comprava um, era a prenda ideal para mim, para os meus filhos e para os meus netos. Seria um privilégio ter um representante dos primórdios do automóvel na garagem – ainda para mais com as vantagens do séc. XXI, nomeadamente a fiabilidade dos componentes. Infelizmente, uma unidade como esta custa a módica quantia de 52.319,60 €.

Se é muito dinheiro? Claro que é, mas sinceramente vale cada cêntimo. Se gostas de automóveis nem preciso explicar porquê. Se não gostas, esquece… não vou tentar fazer-te mudar de ideias. Há coisas que só os petrolheads conseguem entender.

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Espero que tenham gostado tanto desta volta de Morgan 3 Wheeler quanto eu – se gostaram do texto, apelo à vossa partilha nas redes sociais. Em nome da Razão Automóvel, resta-me agradecer à Morgan Portugal pela cedência do 3 Wheeler e ao São Pedro por ter aguentado a chuva durante toda a sessão fotográfica. Um dia destes voltamos a bater à porta da Morgan para voltar a pedir as chaves.

E não… não aceitamos “não” como resposta (galeria de imagens no final do artigo).

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Diretor Editorial e co-fundador da Razão Automóvel. Tem 29 anos, ama os automóveis mas tem uma paixão secreta: as duas rodas! Praticante de todo-o-terreno, iniciou-se nas lides da condução aos comandos de um Citroen Ax. Não resiste a umas boas curvas, seja no asfalto ou numa folha de papel.