O primeiro Mazda MX-5 é assim tão bom?

O Mazda MX-5 NA é um carro de culto. Fez renascer o conceito roadster, vendeu tanto como água fresca no deserto e conduzia-se como um kart. Tinha dúvidas quanto ao último ponto por isso fui até ao Kartódromo de Palmela para as dissipar…

Quando conduzo carros de culto do anos 90, como o MX-5 NA, às vezes acabo por largar o volante com um ligeiro trago a deceção na boca. A experiência de condução de alguns desses modelos por vezes fica aquém do estatuto. Direções vagas, travões esponjosos, motores demasiado pontudos…

NOTA: Este artigo faz parte do Especial Razão Automóvel: testámos as quatro gerações do Mazda MX-5

Aconteceu-me isto com o Volkswagen G40 e com mais uns seis ou sete modelos que só não nomeio porque as justificações iam ser demasiado longas (um desse modelos tem HF Turbo no nome…). Mais do que verdadeiros defeitos, às vezes tratam-se de idiossincrasias próprias da época. Não interpretem mal, adoro clássicos. Há experiências que só podem ser vividas aos comandos de um clássico.

Mas como já deu para perceber, sentei-me na geração Mazda MX-5 NA meio desconfiado. A ficha técnica tentou esclarecer-me…

mazda mx-5-42

Nas imagens podem ver a versão mais moderna da geração NA, equipada com um motor 1.8 atmosférico de 133cv, diferencial autoblocante e um peso de 990kg – a primeira geração deste modelo era mais leve mas recorria a um motor 1.6 de 115cv e não tinha diferencial autoblocante. A distribuição de pesos é perfeita (50:50) e as suspensões recorrem a uma arquitectura wishbone com barras estabilizadoras nos dois eixos.

“A filosofia do projeto teria de assentar porém numa máxima japonesa: Jinba ittai, que em português significa algo como “cavalo e cavaleiro num só corpo””

No papel isto soa tudo muito bem. Mas… e na prática?

Na prática soa ainda melhor. O Mazda MX-5 NA é efetivamente melhor do que a soma individual das partes. Conduz-se com uma facilidade impressionante. A direção é justa e franca; as suspensões apesar de brandas permitem, graças ao equilíbrio do chassi, uma leitura honesta das reações; o motor é atrevido, cheio em baixas rotações e potente até ao corte; os travões cumprem.

mazda mx-5-68

Odeio dizer isto, mas «há muito tempo que não me divertia tanto ao volante de um carro». Eu sei… soa a cliché, é um cliché, mas é verdade. Não estava à espera que um modelo nascido em 1989 (pouco mais novo que eu…) fosse tão atual nos comandos.

A história (versão resumida) do pequeno Mazda MX-5

Se antes de rodar a chave do Mazda MX-5 tivesse estudado a “fundo” a história do seu desenvolvimento, talvez não tivesse ficado tão surpreendido. Por exemplo: sabiam que o MX-5 foi pensado e idealizado por um jornalista da Motor Trend em 1976?

“Não é preciso ser dono um “kit de unhas” gigante para brincar com este roadster nipónico”

Bob Hall trabalhava na Motor Trend quando entrevistou Kenichi Yamamoto e Gai Arai, directores de Pesquisa e Desenvolvimento da Mazda. Durante um jantar entre os três, por curiosidade perguntaram a Hall que tipo de modelo é que ele achava que faltava à Mazda. A resposta não podia ter sido mais petrolhead: algo inspirado nos roadsters britânicos da década de 60, tração traseira e preço acessível. Saíram dali e foram logo fazer o MX-5? Não. Ninguém ficou entusiasmado.

mazda mx-5-79

Porém, ditou o destino que 5 anos mais tarde Bob Hall fosse convidado pela Mazda para assumir as funções de diretor de produto. Por essa altura Yamamoto era CEO da Mazda e Hall, como é óbvio, voltou à carga com o assunto. Diz-se que Yamamoto, ainda que relutante, deu autorização a Hall para avançar. Assim foi.

O recém-inaugurado estúdio de design da Mazda na Califórnia (onde estava Hall) fez uma proposta e o departamento japonês fez outra. A equipa chefiada por Bob Hall propôs um modelo com motor dianteiro e tração traseira, enquanto que os japoneses propuseram um carro com motor central-traseiro. Também houve um projeto idealizado com motor e tração dianteira mas ninguém o levou a sério – vá-se lá saber porquê…

A NÃO PERDER: Os clássicos e o doce sabor da nostalgia

Em 1984, Yamamoto decidiu-se: o projeto liderado por Hall ganhou e tinha luz verde para avançar. Porém, a filosofia do projeto teria de assentar numa máxima japonesa: Jinba ittai, que em português significa algo como “cavalo e cavaleiro num só corpo”.

No fundo é aquilo que todos nós esperamos de um desportivo: que seja capaz de estabelecer connosco uma relação quase orgânica – uma simbiose homem/máquina semelhante à que os cavaleiros estabeleciam com os seus cavalos.

No dia 9 de fevereiro de 1989, a Mazda apresentou ao mundo um Mazda MX-5 NA durante o Salão de Chicago. Se lá em 1976, Yamamoto tivesse previsto o sucesso do pequeno MX-5, certamente que tinha dado mais cedo ouvidos a Hall.

Voltando ao início…

Agora que já conhecem a história do modelo, vamos voltar ao início. O título deste artigo é “O primeiro Mazda MX-5 é assim tão bom?“. A resposta é «sim», ele é mesmo bom. Oferece uma experiência de condução pura, desafiante e ao mesmo tempo acessível a qualquer um. Não é preciso ser dono de um “kit de unhas” gigante para brincar com este roadster nipónico (vejam aqui).

Infelizmente, a sua utilização quotidiana é limitada. Parece que andamos literalmente num kart quando circulamos junto a outros carros. Não é cansativo mas está longe de ser prático. O interior é demasiado acanhado e o túnel central aquece demasiado as pernas.

Enfim. Como dizia no início são “idiossincrasias próprias da época”, detalhes que não beliscam o mérito do carro. Se fosse de outra forma o Mazda MX-5 não seria o roadster mais vendido de todos os tempos. É obra! Amanhã passem por cá, vou mudar-me para a 2ª geração do Mazda MX-5 (NB) e falar sobre ele:

mazda mx-5-89

AGRADECIMENTOS: Mais um trabalho fotográfico com a assinatura do Thom V. Esveld e do Gonçalo Maccario, fotógrafos da Razão Automóvel. Obrigado rapazes e desculpem a trabalheira!

Segue a Razão Automóvel no Instagram e no Twitter