Há 60 anos o desporto automóvel mudava para sempre

12/06/2015
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Naquele momento, à entrada da recta das boxes, o Jaguar de Hawthorne travou inesperadamente. Hawthorne tinha travões de disco e o seu poder de travagem era bem mais eficaz do que os travões de Macklin. Os segundos que seguiram em Le Mans tornaram aquele momento num dos mais negros da história do automobilismo.

Há 60 anos aquele Sábado, 11 de Junho de 1955, antevia-se glorioso. 250 mil pessoas aplaudiam os pilotos que partiam para mais uma edição das 24h de Le Mans. Os nomes que se alinhavam no traçado faziam fervilhar de emoção aqueles que se deslocaram ao certame: Juan Manuel Fangio e o colega de equipa Stirling Moss estavam aos comandos de um Mercedes 300 SLR, Mike Hawthorn seguia a bordo de um Jaguar D-Type. A Ferrari, Aston Martin, Maserati, Jaguar e Mercedes lutavam pelo pódio, seguiam todas muito próximas umas das outras, seria um duelo memorável.

“…a Jaguar, provavelmente arrependida pela sua decisão de continuar em prova, esteve 30 anos fora de Le Mans.”

Na entrada para a 35ª volta, Hawthorne (Jaguar) e Fangio (Mercedes) assumiam as rédeas da corrida, posicionados no primeiro e segundo lugar, respectivamente. Pela frente encontravam os carros mais lentos, pelos quais serpenteavam a velocidades superiores a 240 km/h e nas partes mais rápidas do traçado, chegavam a atingir 280 km/h.

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À saída da última curva antes da recta das boxes, Hawthorne encontra o mais lento Austin-Healey 100 de Lance Macklin e passa-o facilmente com o seu Jaguar D-Type. Quando está à frente de Macklin trava para as boxes, quase que se esquecia da instrução para abastecer.

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Atrás de Hawthorne o Austin-Healey 100 de Macklin esforça-se para travar perante a desaceleração inesperada do carro da frente. Numa tentativa de evitar o choque, Macklin desvia-se pela esquerda do Jaguar D-Type sem se aperceber que era seguido por outros dois carros.

Atrás estava Pierre Levegh, aos comandos do número 20, outro Mercedes 300 SLR da equipa Daimler-Benz e que seguia à frente de Fangio na pista, naquele momento. Fangio, que tinha o 2º lugar na tabela, preparava-se para ultrapassar Levegh.

Levegh não conseguiu evitar o choque com o Austin-Healey 100 e acabou por embater contra o lado esquerdo da traseira do carro de Macklin a mais de 240 km/h. O carro de Macklin transforma-se numa rampa e o Mercedes 300 SLR levanta voo em direção à multidão.

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Ao embater na traseira do Austin-Healey, várias partes do Mercedes voaram em direção ao público. O capot atingiu vários espectadores como uma guilhotina, o eixo da frente e o bloco do motor também foram projetados contra aqueles que assistiam à corrida. Neste momento Pierre Levegh era também ele projetado do carro, tendo tido morte imediata. O Mercedes 300 SLR cairia junto do público e com o depósito de combustível partido, pouco demorou a iniciar-se um grande incêndio.

As equipas de resgate desconheciam que o chassis que estava a arder era composto por magnésio. Ao tentarem apagar o fogo com água foi como atirar gasolina para uma fogueira e o incêndio só estaria extinto ao fim de mais de 8 horas.

Na pista a corrida continuava e após a passagem dos carros mais rápidos, a organização removia o Austin-Healey de Macklin do meio da pista. Os números que chegavam aos diretores da prova eram trágicos: 84 mortos (incluindo Levegh) e 120 feridos.

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Para não perturbar o acesso das ambulâncias ao circuito, com a saída de uma multidão de espectadores, a organização decidiu continuar a corrida. Naquela noite, às 00h00, após uma reunião entre os diretores da Daimler-Benz, a Mercedes abandona a corrida. Eles estavam a liderar a prova, já a Jaguar recusou-se a abandonar e venceu as 24h de Le Mans em 1955. No dia seguinte os jornais mostravam as imagens da tragédia e ao lado destas ficava um registo de Hawthorne a beber champanhe no pódio.

Este acidente trágico levou algumas marcas a tomarem decisões drásticas e não só: a Suíça, por exemplo, baniu o desporto automóvel. A Mercedes abandonou o desporto automóvel e só voltou a envolver-se diretamente numa prova em 1987 e a Jaguar, provavelmente arrependida pela sua decisão de continuar em prova, esteve 30 anos fora de Le Mans. Alemanha, Espanha e França também impediram a realização de provas nos seus territórios, uma decisão que revogaram anos mais tarde.

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Para memória futura ficam as imagens e as palavras, registos de um tempo em que a velocidade e a segurança não estavam obrigadas a andar de mãos dadas. A paixão do Homem pela adrenalina mantém-se, cabe-nos a nós recordar que nem sempre foi uma prioridade proteger-nos dessa chama.

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Cofundador da Razão Automóvel | Aos 20 anos, o pai passou-lhe um Alfa Romeo para as mãos com 300 mil quilómetros e disse-lhe: "Faz-te à vida." Desde então tem feito amizade com mecânicos e condutores de reboque por este país fora. Na nossa primeira reportagem, ficamos apeados na A1.