Renault Mégane RS: lobo em pele de lobo

O Renault Mégane RS é um «bad boy» que nos corrompe a alma. Num só dia assustámos pássaros, golfinhos e padres. Como? Descubram nesta viagem que começou em Sintra e acabou na Serra da Arrábida a ver um pôr-do-sol.

OAinda estávamos no pico do Verão, e na Serra de Sintra o dia raiava com uma alegria contagiante. Passarinhos enamorados e flores cobertas com orvalho de uma noite menos quente eram os mensageiros de um dia que se anunciava agradável. Ao fundo, ouvia-se o vento esgueirar-se entre as árvores, sacudindo a preguiça matinal. Tudo lindo, tudo tão virgem e perfeito até que… “vruuuum, tse-páááá!”

“haviam mais pessoas na passadeira, mas foi só nele que reparei. Juro que pensei que o Sr. Padre fosse exorcizar o carro ali na via pública”.

Um Renault Mégane RS num amarelo chocante a rasgar pela Serra de Sintra entra em cena. Com apenas uma redução de caixa (acompanhada por um valente ratér) mandou a calma bucólica da Serra de Sintra «dar uma volta». Que é como quem diz «para o galheiro». Que é como quem diz, foi-se! Caput. Acabou.

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Aquele estouro deve ter morto de susto, pelo menos cinco passarinhos. O Renault Mégane RS é assim: a antítese da calma, do puritanismo, da paz. De tudo o que é sereno.

Antes de continuar a matar passarinhos e a murchar flores campestres, deixem-me contar-vos um curto episódio. Durante os dias em que andei com o RS, parei numa passadeira para deixar um padre passar – haviam mais pessoas na passadeira, mas foi só nele que reparei. Juro que pensei que o Sr. Padre fosse exorcizar o carro ali na via pública. A forma como olhou para mim e para o Mégane RS «amarelo-torrado» foi claramente de reprovação.

Infelizmente chegou tarde, por aquela altura já estava viciado nos encantos pecaminosos providenciados pela Renault Sport.

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O RS transformou-me num desordeiro. Dá vontade de ligar o «modo RS» nos semáforos – o tom de escape fica mais audível, entre outras coisas (já lá vamos…) – só para impor a presença do RS na selva urbana. Ridículo não é? Este vosso escriba, que é um «betinho» da província – daqueles que parece que pega toiros e usa o mesmo penteado há anos – estava possesso. Confesso que há muito tempo que um carro não me tirava o sono. Eu sei, eu sei, “é só um Renault Mégane”. Errado. É muito mais que isso.

“A relação telepática que estabeleci com o Mégane RS estendeu-se à nossa carteira. O nosso subconsciente e o ponteiro do combustível passaram a estar interligados com as bombas de gasolina”

O que a Renault Sport fez com o Mégane é notável. Posso garantir-vos que é um automóvel completamente distinto dos seus irmãos de gama, e não é só porque lá na frente trabalha um 2.0 Turbo de 265cv – que por sinal até podia alongar um pouco mais a faixa de rotação. Do Mégane que todos conhecemos só herdou o nome e o aspeto. Suspensões, carácter, tato… tudo é diferente.

Mudar de mudança, por si só já é uma experiência. Sente-se o eixo da frente desenfreado à procura alcatrão, e aquela fração de segundos em que a nossa mão vai do volante à caixa parece uma eternidade. O Mégane sacode-nos da esquerda para a direita e assusta os menos experientes.

Voltando à calmaria interrompida da Serra de Sintra. Com o dia ainda a raiar, o relógio ainda não tinha batido nas 7 horas e já estava a equipa da Razão Automóvel espalhada pelas curvas da serra com intercomunicadores. Ao volante, cabia-me a mim a responsabilidade de dentro da legalidade fazer uns «bonecos» interessantes para a fotografia.

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A afinação do chassi do Mégane RS quase nos remete para um carro de troféu. Não só é possível apontar a dianteira à entrada da curva e daí para a frente fazer a curva só com o acelerador, como é possível suster ligeiras derivas de traseira que à partida pareciam impossíveis num automóvel com «tudo à frente».

“A história dos passarinhos assustados em Sintra repetiu-se, mas desta vez com os golfinhos do Estuário do Sado”.

Mas se quisermos eficácia máxima em detrimento de uma condução acrobática, o eixo dianteiro aguenta transferências de massa impressionantes, sempre com a traseira colada e a colaborar. A melhor palavra para descrever o comportamento do Mégane RS é: telepático. Simplesmente telepático. Entre aquilo que pretendemos fazer e aquilo que o carro nos dá, não dista nem uma fração de segundo. É uma autêntica máquina de precisão. Pensamos e ele executa; viramos e ele vira.

Já conduzi, inclusivamente em circuito, alguns desportivos de renome – daqueles nascidos e criados na cidade Estugarda, estão a ver? E no que a sensações e eficácia diz respeito, o Mégane RS fica a dever-lhes muito pouco.

É um carro que nas mãos certas (portanto, não nas minhas…) é capaz de num trackday envergonhar muita gente. Isso ficou bem patente nos quatro dias que passámos juntos. Ou nas várias voltas que já cumpriu em Nürburgring nas mãos dos experientes pilotos da Renault Sport.

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Acima de tudo, depois de nos habituarmos ao seu carácter aguerrido, não assusta. Impõe respeito, mas não assusta. Faz-nos suar e aplicar toda a nossa concentração no volante mas deixa-se explorar no limite com facilidade. Não nos trai com reações bruscas ou perdas de motricidade repentinas.

Infelizmente, a relação telepática que estabeleci com o Mégane RS estendeu-se à nossa carteira. O nosso subconsciente e o ponteiro do combustível passaram a estar interligados com as bombas de gasolina. O apetite com que o motor 2.0 Turbo de 265cv consome gasolina só tem paralelo com os buracos negro do Universo. Ver valores de 16litros/100km no computador de bordo é relativamente normal em condução menos calma. E se eventualmente quiserem andar devagar, nunca esperem baixar dos 9 litros/100km. É a vida, não se pode ter tudo.

O Mégane RS é um carro de extremos. Diversão extrema, sensações extremas e claro… consumos extremos! Quem não quiser isso, tem no Renault Mégane Coupé 1.6 dCI de 130 cv, uma excelente alternativa.

Ao bater das 9 horas da manhã, tanto a nossa equipa como o Mégane RS já acusavam fome. O nosso pequeno-almoço – para quatro elementos – composto por travesseiros de Sintra, galões e mais uns salgados ficaram em 23€. O Renault Mégane RS sozinho «papou» 40€ em gasolina e não ficou satisfeito.

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Com tamanho apetite, ficámos na dúvida: vamos para a redação ou vamos até Setúbal pela Serra da Arrábida? Que se dane… Vamos até Setúbal almoçar o famoso choco-frito. Dias não são dias, e não são todos os dias que temos um Mégane RS connosco. E lá fomos nós. A história dos passarinhos assustados em Sintra repetiu-se, mas desta vez com os golfinhos do Estuário do Sado.

“Almoçamos e já não arredamos pé de Setúbal. Ficámos por lá até ao pôr-do-sol. Foi um dia bem passado, bem longe do computador que me faz companhia enquanto escrevo estas linhas”.

Não eram só os bichinhos da natureza que estavam incomodados. Tivemos de desligar o «modo RS» porque lá atrás o Gonçalo Maccario já se queixava das acelerações. Os consumos baixaram e o ritmo também (infelizmente, nunca na mesma medida). Aproveitámos para contemplar o azul-turquesa do Estuário do Sado que naquele dia estava particularmente nubloso – Nada de mais. O que é belo é sempre belo.

Arrabida RENAULT MEGANE RS 02

Almoçamos e já não arredamos pé de Setúbal. Ficámos por lá até ao pôr-do-sol. Foi um dia bem passado, bem longe do computador que me faz companhia enquanto escrevo estas linhas.

Pergunto-me se alguma vez teria coragem para gastar 37.500€ num Mégane RS (41.480€ a versão ensaiada). A minha cabeça diz-me para ter juízo, mas o coração não acompanha. Por este valor, estou certo que não encontrava um carro novo com esta performance e prazer de condução.

Sunset RENAULT MEGANE RS 05

Parecido? Talvez o Volkswagen Golf GTI (ensaio para breve) mas não oferece uma experiência de condução tão intensa e gratificante.

O Renault Mégane RS é um automóvel que merece todos e quaisquer elogios que já lhe tenham feito, e peço-vos desculpa se repeti muitos deles. Felizmente, a crítica é unânime. Quanto ao conforto, não escrevi nem uma palavra não foi? Vamos pôr isto nos seguintes termos: ninguém procura carinho nos braços de um pugilista. Perceberam?  Fiquem com as fotografias.

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