Carta aberta ao meu primeiro carro

14/02/2014
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No dia em que se celebra o amor, tento fazer as pazes com o meu primeiro carro. Porque tal como no amor, não há carro que marque mais do que o primeiro. Concordam?

Meu querido Citroen Ax,

Escrevo-te ao fim de todos estes anos, porque ainda sinto saudades tuas. Troquei-te a ti, meu companheiro de tantas aventuras, de tantos quilómetros, por aquela carrinha sueca.

Tenta compreender-me. Ela tinha ar-condicionado, um aspecto mais musculado e um motor mais potente. Fez-me tantas promessas que eu acabei por trocar-te. Na verdade, ela oferecia-me coisas que tu jamais sonhavas oferecer-me. Confesso que aqueles primeiros meses de Verão foram fantásticos, o ar-condicionado deu um jeito tremendo e o motor tornou as minhas deslocações mais rápidas.

Além de que a minha vida tinha mudado. As viagens passaram a ser maiores, as voltas para a universidade foram trocadas por idas para o trabalho e a necessidade de espaço aumentou. Eu tinha mudado e tu continuavas na mesma. Precisava de um pouco mais de estabilidade e serenidade. E por isso troquei-te. Na minha garagem só havia espaço para um automóvel.

Mas pouco tempo depois, sempre que via um Citroen Ax começava a pensar em ti e nas nossas aventuras. E foi a partir daí que as coisas começaram a correr mal. Tentei recriar os momentos de diversão que vivi contigo a bordo da minha nova companheira de viagem, mas não era a mesma coisa.

Tu eras um libertino, ela uma controlada. Contigo estava por minha conta e risco, com ela tinha sempre a intervenção dos sistemas electrónicos. Tu tinhas uma condução pura, ela uma condução filtrada. Não eras um super-desportivo – o teu motor não debitava mais de 50cv. Mas a forma empenhada como subias de rotação nas estradas secundárias que percorríamos à procura daquelas curvas (e que curvas!), fazia com que no meu imaginário fosse a bordo de algo mais potente.

Hoje, com a vida mais estabilizada ando novamente à tua procura. Mas não sei nada de ti, infelizmente nunca mais cruzámos «faróis» na estrada. Nem sei sequer se ainda rolas ou se já encontraste o «descanso eterno» num centro de abate automóvel – Lagarto, lagarto, lagarto!

Quero dizer-te que ando novamente à tua procura. Quero saber por onde andas, como tens passado, e quem sabe se ainda não temos mais uns milhares de kilometros para fazer, juntos novamente. Assim espero! Seja de que forma for, foste e serás sempre o meu primeiro carro.

Do condutor que não te esquece,

Guilherme Costa

OBS: Na fotografia em destaque, os dois intervenientes desta romântica história de «quatro-rodas» no dia em que se separaram. Nunca mais se cruzaram. E o vosso primeiro carro, qual foi? Deixem-nos os vossos comentários no nosso Facebook.

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Diretor Editorial e co-fundador da Razão Automóvel. Tem 29 anos, ama os automóveis mas tem uma paixão secreta: as duas rodas! Praticante de todo-o-terreno, iniciou-se nas lides da condução aos comandos de um Citroen Ax. Não resiste a umas boas curvas, seja no asfalto ou numa folha de papel.